terça-feira, 16 de dezembro de 2008

E depois ele calou-me...

... e disse:
cinzento + cor-de-rosa = vermelho escuro.

Ou melhor:
cinzento + rosa = amore profondo rosso.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Daltonice*

Eu vejo o mundo cor-de-rosa.
Ele vê o mundo cinzento.

*eu sei que é daltonismo. Isto é apenas uma private, daquelas que me fizeram rir até doer a barriga.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Conhecer

Houve um momento na vida em que achei que havia amizades para sempre. Ou pessoas que são uma espécie de nossas almas gémeas práticas: que nunca nos falham e sabem sempre dizer como a frase em que estamos a pensar acaba, mesmo quando ainda só dissemos as primeiras palavras. Almas gémeas práticas são pessoas imperfeitas, mas com uma ligação connosco maior do que essa imperfeição. São muletas, ombros, ouvidos, apoios, amparos, o nome que se lhes quiser dar. Pessoas com radares incorporados e sintonizados só para nós. Pessoas que achamos que conhecemos.
O tempo e a vida, claro, encarregaram-se de me mostrar que não há amizades para sempre, e que almas gémeas, mesmo imperfeitas, são coisa que não existe. O pior foi o momento em que, para lá de perceber que ninguém nos ouve se não dissermos nada, e que radares sintonizados só para nós só estão dentro de nós mesmo, foi perceber que, mesmo quando falamos, às vezes nem assim nos ouvem.
Sempre gostei de pensar que há pelo menos duas ou três pessoas na minha vida que conheço mesmo. É uma espécie de conforto, um investimento com ida e volta, porque as pessoas que eu acho que conheço mesmo são as pessoas a quem eu me mostro mesmo. E isso às vezes é um descanso, embora também possa ser a afirmação da vulnerabilidade absoluta.
Por isso é que não sei bem como reagir quando há momentos - como agora - em que acontece alguma coisa que me faz concluir que não conheço ninguém, que nunca conhecemos verdadeiramente a pessoa que está ao nosso lado. E que tentar sequer conhecer alguém é uma tarefa perdida à partida. Ou porque as pessoas se escudam, ou porque são para nós uma representação de algo que se calhar até gostariam de ser, ou porque têm uma dimensão inalcançável e até mesmo obscura à qual nunca chegaremos, ou simplesmente porque são mentirosas e falsas e um dia descobre-se um segredo horrível e o passado todo que se viveu é revisto em perspectiva do que se descobriu, como se nunca tivéssemos vivido aquilo porque a pessoa que conhecíamos não pode ser a mesma que escondeu o segredo terrível.
Não sei o que fazer ou como reagir porque odeio pensar que há coisas inalcançáveis à partida, ou duas faces para tudo. É que já é tão cansativo lidar com uma realidade, que nem sequer quero pensar o que será ter de lidar sempre com duas, em todo o lado, a que se mostra e a que se esconde.

Por favor, senhores da publicidade...

... não me enviem mensagens para o telemóvel que começam com a pergunta:
"Há quanto tempo não faz exercício físico?"

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Internem-me

Estou naquela fase em que olho para ele pelo canto do olho e começo a sorrir sozinha.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Porque é que eu gosto de andar a pé

a) Porque reparo sempre em qualquer coisa nova numa rua onde já passei 20 vezes.
b) Porque é o único momento em que deixo a minha cabeça divagar pelos assuntos mais sérios ou mais palermas sem achar que estou a perder tempo ou que podia estar a fazer outra coisa qualquer.
c) Porque de repente há uma janela com um espanta-espíritos pendurado, e o som agrada-me.
d) Porque mesmo no Inverno cheira a Verão (isto é, a peixe grelhado).
e) Porque há cortinas abertas ou portas mal fechadas e casas que se deixam mostrar (e histórias e personagens que começam a ganhar asas na minha imaginação).
f) Porque posso perder tempo a ver montras-que-estavam-mesmo-ali--no-caminho-para-serem-vistas-e-já-agora-deixa-me-cá-entrar-só-para-ver-o-que-há-mais.
f) Porque depois de andar durante 40 minutos, para cima e para baixo (malditas colinas), convenço-me de que perdi pelo menos meia grama de celulite.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Gosto tanto do Natal

Por tudo. Até por ser a única altura do ano em que podemos combinar um almoço e dizer:

"Encontramo-nos lá dentro, ao pé do Pai Natal."

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Estamos a vida toda à espera do momento em que nos vamos apaixonar...

…e quando isso acontece - bum! - temos saudades do tempo em que tínhamos controlo sobre tudo. E em que não nos sentíamos como gelatina 90% do tempo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Expectativas e certezas

Eu dizia que me ia casar aos 23 anos, no dia 23 de Junho. Dizia isto desde sempre, e brincava com isso quando fiz 20 anos, porque afinal os 23 já não pareciam tão distantes como eram aos 12, e a minha vida, então, estava muito longe do sítio onde eu pensava que ia estar aos 23. Eu dizia que me ia casar aos 23 anos, no dia 23 de Junho, e no dia 22 de Junho desse ano, o meu amor virou-se para mim e disse a frase fatídica: “Temos de falar”.
Nada foi como eu pensava, nada verdadeiramente é como pensamos. E isto serve para falar sobre expectativas. Porque aos 29 anos, aos 27 anos, ouço amigas a falar no relógio biológico. Amigas a fazer contas à vida e ao amor e ao trabalho, e a ver que não está nada no lugar onde devia. (Amigas que não estão felizes e que são tão bonitas que eu me pergunto que treta é essa do universo e das boas energias quando pessoas assim estão sozinhas).
Cada vez mais acredito que quanto mais coisas sabemos, quantas mais certezas temos, mais a vida se vai armar em bruxa maldita e fazer exactamente o contrário (a lição dos 23 anos ficou-me para a vida, nunca mas nunca mais me vão ouvir atirar uma data para o que quer que seja). A questão é que quanto mais pintamos a realidade, quanto mais imaginamos o príncipe encantado e o emprego de sonho e a casa perfeita, mais a casa parece pobretanas, o emprego uma merda, o príncipe um sapo verde com verrugas. Porque faz parte de nós sermos descontentes. Pôr defeitos em tudo. Achar que o que era bom cinco dias antes, afinal é "assim-assim", “normalzinho”, "nada de especial". E cada vez mais começo a achar que, embora seja bom e recomendável ter sonhos, padrões, bitolas elevadas, expectativas, é melhor não pensar demasiado no futuro ou ter demasiadas certezas.
Eu dizia, por exemplo, que queria trabalhar num sítio onde afinal odiei estar (e aquele de que mais gostei até hoje foi o mais improvável de todos).
Eu dizia que queria um namorado vegetariano. Ou que gostasse de praia tanto como eu, e fosse capaz de ir ao mar em Outubro, como eu (ok, nesta questão não era tão inflexível, bastava-lhe pôr os pezinhos na areia). Um amor que gostasse das músicas que eu gosto. Que lesse sempre o que eu escrevo. E apaixonei-me por um namorado cuja comida preferida é costeleta de novilho, e que este verão terá ido à praia umas duas vezes, no máximo.
Expectativas furadas? Talvez. E de certeza que vão aparecer outras (já estão a aparecer) que ele também não irá cumprir, como eu não irei cumprir as dele. Mas depois, acontecem coisas como esta: não é vegetariano mas leva-me a restaurantes onde sabe que há alguma coisa para mim. Não gosta dos Copeland mas envia-me o Blue Moon cantado pela Ella Fitgerald. Depois do Gomorra e de outros filmes sobre a máfia, vê a Amélie comigo, vê o Sexo e a Cidade, vê o Lipstick Jungle. E esta quinta, nem tem dúvidas em me acompanhar à Culturgest para ver o Tim Etchells, mesmo falado em flamengo.
Por isso é que me parece que expectativas demais são desilusões a mais, desnecessárias. Ou são coisas que pura e simplesmente nos passam ao lado, porque nem as colocamos em hipótese. E por isso é que também me parece que quanto menos certezas tivermos em relação ao que será a nossa vida no dia xis do ano xis, melhor será o presente, e melhores poderão ser as surpresas.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Tim vezes dois (que alegria)




Os meus dois Tims (isto diz-se?) estão juntos na Vogue inglesa de Dezembro: Tim Burton fotografado por Tim Walker, mais uma série de fotografias inspiradas no imaginário do Roald Dahl (que escreveu o Charlie e a Fábrica de Chocolate). Um Capuchinho vermelho a disparar uma pistola é das minhas preferidas, mas as do casal Tim Burton-Helena Bonham Carter também estão maravilhosas. Outra coisa não seria de esperar, claro.

Que ideia esperta

Ir visitar uma oficina de chocolate ao meio dia e passar a hora do almoço, cheia de fome, a olhar para chocolate a borbulhar e a ser transformado em bombons e trufas.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Os Jimmy Eat World respondem

A R.L. lançou-me um desafio: escolher uma banda de eleição e responder a dez perguntas com nomes de músicas dessa banda. (a parte da foto eu vou fingir que me esqueci, hihihihi). E como eu não sou pessoa de dizer que não a desafios, agarrei na discografia dos meus queridos Jimmy Eat World, e respondi a tudinho. Aqui vai:

1) És homem ou mulher? Believe in what you want
2) Descreve-te: Feeling Lucky
3) O que as pessoas acham de ti? Nothing Wrong
4) Como descreves o teu último relacionamento: Over
5) Descreve o estado actual da tua relação:
For me this is Heaven
6) Onde querias estar agora?
In the same room
7) O que pensas a respeito do amor? The Most Beautiful Things
8) Como é a tua vida? Big Casino
9) O que pedirias se pudesses ter só um desejo? Just Watch the Fireworks
10) Escreve uma frase sábia: Let it Happen

Parece que tenho de passar isto a mais gente, não é? Estilo aqueles emails que nos amaldiçoam se não reencaminharmos dentro de cinco minutos e fecharmos os olhos dez vezes de seguida e fizermos cânticos à Lua todos vestidos da mesma cor. Não vou ser desmancha-prazeres, por isso passo o desafio a:

Mise en Abyme
A Pipoca Mais Doce
O Blog do Desassossego
Perante o Riso Geral

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Julio Cortázar

"Por trás de toda a acção havia um protesto, porque tudo significava sair de para chegar a, mover algo para que estivesse aqui e não ali, entrar nessa casa em vez de não entrar ou entrar na do lado, ou seja, em cada acto havia a admissão de uma carência, de algo que ainda não fora feito e que era possível fazer, o protesto tácito diante da evidência contínua da falta, da quebra, da escassez do presente."

"Aquilo a que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar-se com ela. Escolhem-na, juro-te, eu vi-os fazerem-no. Como se se pudesse escolher no amor, como se o amor não fosse como um raio que te parte os ossos e que te deixa petrificado no pátio. (...) Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Tu não escolhes a chuva que te vai ensopar até aos ossos quando sais de um concerto."

in O Jogo do Mundo (ed. Cavalo de Ferro)

Juliette has a gun

É o nome de um perfume novo. E eu pergunto-me para que quer a Juliette uma arma.
Será para matar o Romeu?

domingo, 9 de novembro de 2008

Depois ainda se admiram que eu goste de francês

Venham-me dizer que o francês é parvo. Que é arrogante. Ou que é impossível alguém zangar-se em francês sem fazer boquinhas ridículas.
O francês é lindo. É musical. É bonito porque ao mesmo tempo que é antigo, é urbano. É uma língua que se presta a confidências e devaneios. A Amélie Poulain nunca resultaria noutra língua, por exemplo. Ou o Brel: "La Chanson des vieux amants" nunca teria aquele refrão tão desesperado se não fosse em francês.
E agora eu tive mais uma confirmação de como a língua é bonita, de como gosto dela. Porque descobri que a nossa expressão "ser desmancha-prazeres", em francês diz-se "empêcheur de danser".
"Empêcheur de danser". Não me ocorre melhor tradução.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Não dei gorjeta ao taxista...

...mas devia, devia ter dado, porque claramente este taxista em questão não estava bem. Dos Restauradores até ao Poço do Bispo, em pleno dia, no rádio só tocou uma música, uma só, sempre em repeat. Não sei o que era, mas era em brasileiro. Dizia qualquer coisa como "o meu coração chora e nunca mais vou querer viver desde que você me abandonou". Era foleiro, era muito foleiro, mas era sentido. E sempre em repeat.
Era um coração partido a sério, só podia. E por isso era de ter dado uma moeda. Ou uma palmadinha nas costas. Qualquer coisa.

Acho que soube que gostava dele…

… quando na mesma noite falámos dos concertos na Casa Ocupada e do Fritz Lang.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Paris, Texas

Walt: I thought you were afraid of heights.
Travis: I'm not afraid of heights. I'm afraid of falling.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Missão cumprida

Consegui encontrar um blusão de cabedal sem ser de pele.
Já tenho o livro do Tim Walker.
Arranjei dois bilhetes para o concerto de Cansei de Ser Sexy logo à noite.
Comi as primeiras castanhas assadas do ano.
Vejo a vida cor-de-rosa outra vez, como a Edith Piaf via La vie en rose.
Já não me apetece escrever sobre o fim do romantismo.
O título deste blogue faz finalmente sentido.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O senhor-estátua está apaixonado

O senhor que costuma estar a fazer de estátua na Rua Augusta estava no meio da rua abraçado a um coração, com um ar tótó e apaixonado.
Não havia como não lhe dar uma moeda.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Adoro comer gelado às colheradas…

… daqueles pacotes grandes e redondos, como tem a Haagen-Dazs e a Ben & Jerry's. Mas quando alguém me desilude com algo que até me faz lembrar outras desilusões que já tive, e sobretudo quando é mesmo em cheio, na altura em que me sinto mais feliz, não consigo evitar a associação: Há aqui qualquer coisa no peito, ao pé do esterno, que se sente como o pacote de gelado. E há qualquer coisa que é arrancada à colherada. E fica-me a doer o espaço.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Entre a dor e o nada...

Faulkner escolheu a dor, Godard escolheu o nada. E eu hoje estava a pensar que esta bem pode ser a questão (e a escolha) que resume tudo, sobretudo quando se conhece alguém novo. Há quem não dê confiança a outra pessoa porque tem, à partida, a certeza de que essa pessoa a vai desiludir à primeira oportunidade. Há quem não se apaixone porque perder a cabeça significa espatifar a cabeça, mais cedo ou mais tarde. Há quem tenha mais travões do que um Audi com ABS, e também há quem seja exactamente o contrário, tão impulsivo e imponderado que salta directamente para o precipício. Eu não sei onde é que ando aqui pelo meio: já fui a pessoa do precipício, já espatifei a cabeça, e pelo caminho aprendi a ter as minhas próprias reservas. Mas ainda não fiquei cautelosa (ou devo dizer cínica?), o suficiente para incorporar os travões ABS em toda e qualquer circunstância, ou para ficar indiferente quando alguém me vem com a conversa de que mais vale estar sozinho porque assim ao menos ninguém se magoa. Irrita-me, perco a cabeça, começo logo a desbobinar as mil e uma razões porque pensar assim só faria com que o mundo fosse o sítio mais aborrecido e desenxabido do mundo.
Estratégias, cautelas, manobras, ultimatos, isso é coisa para a Batalha Naval, não para o dia-a-dia. Sobretudo porque, definitivamente, há pessoas que entram na nossa vida que atiram todas as teorias por terra. E ainda bem.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Barcelona

Primeiro foi uma mensagem, a um dia de início de Outubro:
"Vamos passar o fim-de-ano a Barcelona? Bora bora bora?"
Apesar do entusiasmo, o meu lado racional disse que não. Pelo dinheiro, porque teria que marcar férias, porque ainda falta muito tempo, porque em Dezembro Barcelona deve estar um gelo... e por causa do dinheiro. (já tinha dito?)
Mas depois foi o M., na sexta-feira, a dizer que ia passar o fim de semana a Barcelona, e a falar das Ramblas, e das lojas, e eu com saudades de passear por ali abaixo e ver as flores e as gaiolas, e aquele ar de mercado no meio de uma via cosmopolita. Eu de repente com um fim-de-semana muito pouco excitante pela frente, e com saudades dos donuts do Dunkin' Donuts, do parque Güell, de andar pelo Passeig de Gracia só por andar, e dos copos, e das festas, e dos autocarros nocturnos como os nossos das seis da tarde, cheios de gente.
E hoje, hoje foi a gota de água. Um email de trabalho, para alguém com quem falei a semana passada, e uma resposta: "Olá, deste sexta que já não trabalho aí, vim viver para Barcelona."
Perante isto, o que é que uma pessoa pode fazer? Bater com a cabeça nas paredes? Ficar a remoer na vontade de ir? Mentalizar-se que não dá mesmo ou começar a fazer contas à vida e chegar à conclusão de que se-comer-sopa-todos-os-dias-ou-trouxer-o-almoço-de-casa-durante-um-mês-e-não-comprar-nada-de-espécie-alguma-até-é-capaz-de-dar? Eu fui pela última, claro. Estúpida. Mas uma estúpida feliz.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Já vi o novo boneco do Multibanco…

… e apesar do que já me tinham dito e do que já tinha lido, é mais parvo do que eu pensava. É feliz demais. Esbracejante demais. Parece um Perna de Pau verde com demasiados antidepressivos, a quem tudo corre bem e a vida sorri. Ninguém tem esse estado de espírito junto a uma caixa multibanco.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

É impressão minha....

... ou já choveu, já ficou frio, já é Outono, e ainda não há castanhas assadas na rua?

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Como esta semana, afinal, até pode ser boa

Às 11.30 da manhã de uma segunda-feira já tive duas (boas) surpresas: um marshmallow em forma de Hello Kitty em cima da secretária, com um elogio rabiscado; a Vanity Fair que pedinchei ontem, entregue em mão por duas amigas.
Obrigada.

domingo, 5 de outubro de 2008

Ansiedade

s.f. dificuldade de respiração; inquietação de espírito; incerteza aflitiva; impaciência.
Vale a pena se não estiver condenada à partida.
Vale a pena se não passar directamente à angústia, e saltar tudo o que vale a pena sentir.

Quero!




quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Hoje

É um daqueles dias tão de merda, em que me sinto tão cansada e tão saturada que estava capaz de chorar a ver a maior comédia do mundo, ou o filme mais parvo do mundo. Ou o Telejornal. Ou o anúncio da Cif.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Verdadeiramente estúpido

Procurar alguém no meio de milhares de pessoas pode provocar uma úlcera irreversível no estômago. Mas encontrar esse alguém e não lhe dizer nada, nem uma palavra de jeito, isso é verdadeiramente estúpido.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Mosca

Quando se trata de analisar o potencial de uma relação, tenho a mesma orientação que uma mosca: vou sempre em direcção à luz azul-eléctrico que me há-de-fritar.

domingo, 21 de setembro de 2008

Um dia vou dançar até cair para o lado

Era uma das frases dos pacotinhos de açúcar da Nicola. E em baixo, dizia: "Hoje é o dia."
Eu digo:

Um dia vou dançar até cair para o lado. Até me doerem as pernas e os pés e as nádegas e as costas.
Ontem foi o dia.
Sexta vai ser o dia.
Depois, segunda-feira também vai ser o dia.
E o meu bom humor aumenta 200 por cento.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Como eu escolhi a profissão errada

Quero ir a Nova Iorque, e para ir a Nova Iorque e poder comer pelo menos uma vez num restaurante de jeito, tenho de poupar dinheiro durante oito meses.
O meu dentista vai a Nova Iorque de xis em xis meses... e fica hospedado no hotel decorado pelo Phillipe Starck.

Velejar





Passaram-se anos e anos sem andar de barco, e de repente, foram sete vezes em quatro meses. Primeiro em trabalho, numa conferência de imprensa entre as duas margens; depois numa festa, com música aos berros e os pés pretos de dançar descalça no cais; depois para viajar entre ilhas ou ir explorar vulcões e mergulhar; e finalmente, para não fazer nada. Andar de barco para não ir a lado nenhum era só o que me faltava. Depois deste último domingo, já não falta. E descobri que andar sem saber para onde se vai, literalmente ao sabor do vento, é M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O.

Saímos pela manhã, no veleiro do Zé, um senhor de 85 anos daqueles que nos fazem pensar "quero envelhecer assim". O Zé tem um barco, o Zé viaja, faz ginástica, conhece a actualidade, compra jornais, é um conversador nato, com o cabelo muito branco e os olhos muito claros, de uma inteligência erudita daquelas de dizer "quem me dera voltar atrás, aos meus 15 anos, mas não saber nada do que sei hoje. Se soubesse, perdia-se tudo, perdia-se a surpresa, perdia-se metade da graça, porque o que é bom é estar sempre a aprender." E o Zé deve achar, de uma maneira muito carinhosa, que os jornalistas são enciclopédias ambulantes ou aspiradores de informação, porque sempre que fala comigo começa as frases por "Você que é jornalista..."

Almoçámos no meio do Tejo: eu, o Zé, o João, que me desafiou, a Joana, que dá aulas de piano, e uma amiga do Zé. Queijo de cabra, salada, salgados, sumo, espumante, batatas frias e a ponte 25 de Abril quase em cima das nossas cabeças. E nem uma brisa para entornar os copos ou provocar enjoos. Perfeito.

O João disse que eu não podia ter tido mais sorte com o primeiro dia de vela: esteve calmo na hora de almoçar, levantou-se vento na hora de querer conhecer outras margens. E eu que antigamente quando olhava para os veleiros quase deitados na água dizia que nunca na vida me ia enfiar numa coisa dessas, lá fui, sentada na proa, feliz, a levar com o vento e o sol na cara... e a agarrar-me com unhas e dentes a todos os cabos que estavam disponíveis. Não fosse o barco dar uma guinada e apanhar-me desprevenida.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Habilidades

"O meu pai ensinou-me a descascar uma laranja em espiral, de modo a que no fim fosse possível voltar a montá-la e a criar uma espécie de ilusão. Não consigo fazer bolhas nem fazer a roda, portanto isto era uma habilidade importante."

Francesca Woodman, 1973

Florescente

O V., que já foi e ainda é uma espécie de guru profissional, perguntou-me se eu me sinto florescente, e eu não percebi.
Fluorescente? Se brilho no escuro?
Não, se te sentes florescente, a florescer, a evoluir, aprender, disse ele.
Ah, respondi eu. Ri-me e disse que “tem dias.”
Hoje é um dia não. Tem sido uma semana não. Num caso ou noutro, florescente ou fluorescente, não. Estou assim mais para o preto e branco, e não há nada a florejar aqui para os meus lados. Por estes dias, com a motivação com que ando, sou mais uma urtiga.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Quando vamos a passar na rua…

…. e um brasileiro diz:

“Nossa, jogo de bola.”

O que é que isso quer dizer?
Que somos parecidas com o Ronaldinho Gaúcho?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Mensagens sub-reptícias

Ontem, a p*** da ironia voltou a atacar. Estava eu com a minha espécie de depressãozinha de final de verão, a maldizer a rotina que volta para se instalar sem compaixão, quando resolvo ligar a música para animar e sacudir as ideias parvas para algum local em parte incerta. Ideia maldita: assim que o ipod se põe a tocar, saltam os Bloc Party e uma baladazinha com uns versos que ficam a ecoar na minha cabeça:

I have decided
At twenty-five
That something must change

“Alguma coisa tem de mudar” é algo que eu já sabia, que não preciso de ouvir da boca de uma música (isto fica muito parvo escrito assim). A questão é esta: tomei uma decisão. Enquanto durar a depressãozinha de final de verão, só ouço música instrumental.

Serei só eu...

… que gosto de conduzir em estradas nacionais?

Apesar dos tractores que vão a 20 quilómetros por hora, e do feno que tapa qualquer visibilidade de ultrapassagem, e dos buracos na estrada, e das curvas a atirar para os precipícios. Apesar dos irritantes semáforos de controlo de velocidade sempre que há uma recta, das lombas mais altas que os pneus, das rotundas enfiadas às três pancadas, das indicações que de repente desaparecem para dar lugar a uma faixa que indica qual é a próxima matança do porco.

Gosto de conduzir em estradas nacionais. Gosto das curvas que não me deixam adormecer. Gosto das tabuletas com os nomes das localidades, e de me imaginar a dizer “moro na Escravilheira” ou “passo férias em Talefe” sem morrer a rir. Gosto dos papelotes coloridos que enfeitam as ruas em tempo de festas. E de haver, em tudo o que é canto, indicações para o recinto da feira, o pão quente e a danceteria. Gosto de ver sempre os mesmos velhotes sentados no mesmo banco na mesma curva (agora tiraram o banco mas eu continuo a olhar para o mesmo sítio e a perguntar-me onde se sentarão agora). Gosto de imaginar as vidas das casas que vão passando. De sintonizar as rádios locais e ouvir os anúncios das clínicas, lojas de calçado e supermercados da região. Gosto até das estátuas dos gnomos que se vêem nos jardins, e dos búzios gigantes colados nas paredes. Pensando bem, o que estas estradas têm de bom nem é o conduzir. No fundo, é o desacelerar. Às vezes, gosto disso.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

WALL-E

Derreti.
E o meu eu derretido ainda está na sala de cinema.

"Quando voltares de férias, apita"

Foi isto que ele me disse. E eu, que só me lembro daquelas respostas secas e inteligentes quando já se passou demasiado tempo, não disse nada. Não vou ligar, nem quero ligar, nem temos nada para dizer um ao outro.

Apita?
Só se for com a buzina do carro.

Era isto que eu devia ter respondido.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Ter um cão


Ter um cão é acordar com uma lambidela nos pés.
É não poder comer batatas fritas, castanhas assadas ou bolos de qualquer espécie sem ter um focinho em cima dos joelhos.
É ser recebido com uma festa enorme sempre que se entra em casa.
É acordar todos os dias mais cedo para ir à rua e isso não ser um frete.
É apanhar os cócós com um saco.
É ter uma sombra de quatro patas que anda atrás de nós para todo o lado, nem que seja do quarto para a sala e da sala para a casa de banho.
É falar de uma forma infantil e fazer-lhes perguntas como se fossem pessoas.
É ser cumprimentado com uma festa enorme quando se acorda, todos os dias.
É fazer corridas e figuras parvas à porta de casa, com 25 anos.
É ralhar-lhes quando fazem merda.
É limpar a merda que fazem.
É coçar-lhes as costas e a barriga.
É ter o coração do tamanho de uma ervilha quando têm algum problema.

Tenho o coração do tamanho de uma ervilha.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Queria tanto

Queria tanto um convite inesperado, que chegou um convite inesperado.
Queria tanto que alguém perdesse a cabeça, que alguém perdeu a cabeça.
Queria tanto uma mensagem arriscada, que chegou uma mensagem arriscada.
Tão arriscada que não era de quem eu queria.

domingo, 17 de agosto de 2008

Copeland #2

When you look at me
There can be no hesitation
There cannot be a close second to you
I don't know what to do

Nostalgias

Fui ao Parque de Santa Marta, na Ericeira, e à aldeia em miniatura do José Franco, no Sobreiro. Lembro-me de lá ir há 15 anos, antes até. Lembro-me de memórias que só agora vejo que são memórias porque até pensar nisso eram coisas que estavam presentes, não coisas que tinham acontecido há mais de dez anos. Os dois sítios estão bonitos, cuidados, e há um certo orgulho em querer voltar e poder voltar porque aquilo ainda existe e ainda existe vivo e não está cheio de teias de aranha e a cheirar a mofo. Mas ao mesmo tempo é esquisito: no Sobreiro ainda há pão com chouriço, eu é que já não o como (porque deixei de comer carne há anos); em Santa Marta há internet sem fios mas já não há matraquilhos, e eu já não caibo nos baloiços novos que lá fizeram. O parque continua aberto, foi remodelado; o Sobreiro continua com as suas miniaturas e com os seus moinhos, mas eu já não sou a mesma que ia a um lado e a outro.
Por isso pergunto: os sítios estão no mesmo sítio, mas eu onde é que estou? Porque é que não é tão fácil chegar a 15 anos atrás como é fácil chegar a um sítio e a outro? Ou então, como é que se transforma uma coordenada geográfica (chegando à Ericeira, virar para o centro e estacionar junto à igreja) numa coordenada temporal?

valter hugo mãe (e a simplicidade)

"Ter escrito um romance em que as protagonistas são mulheres-a-dias tem a ver com acreditar nas pessoas. Não acredito num país de doutores, de famosos. Acredito em quem mostra coisa feita. Seja ela qual for. Eu tenho dificuldade em engomar uma camisa, mas qualquer mulher-a-dias sabe fazê-lo. A minha família é enorme. Deste universo, são pouquíssimos os que se licenciaram. E, no entanto, vejo-os a progredirem, a educar os filhos, a encontrar espaços de felicidade que eu, muitas vezes, não consigo atingir com tanta simplicidade. Cultivo determinadas angústias que o comum dos cidadãos não tem paciência nem tempo para cultivar. Em última análise, se eu tivesse um bocadinho mais de mulher-a-dias, estaria melhor. Depois de ler determinados livros que nos vão abrindo os olhos, a vida torna-se mais pesada. Mas depois já não há retorno. A única coisa que podes fazer é contemplar os outros."

em entrevista à Visão, 14 de Agosto de 2008

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Limpezas

Ontem agarrei num pano do pó era meio-dia, e só o pousei eram onze da noite. Arranquei tudo das paredes do quarto, limpei debaixo da cama, por trás dos móveis, em cada canto (e perguntei-me como é que não tenho nenhuma doença respiratória com o pó que fica acumulado por tudo quanto é lado). Tirei a roupa do roupeiro, os livros das estantes, arrastei a cama, arrastei os móveis, desliguei as fichas, atirei dezenas de revistas e jornais para o lixo e troquei as extensões de sítio. Nada ficou a salvo, nada ficou no lugar onde estava.
Estava furiosa, e não me ocorreu nada melhor para afastar as fúrias da cabeça. Ao menos agora, apesar das dores em tudo quanto é músculo (e sobretudo apesar das fúrias ainda aqui estarem), tenho um quarto novo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Missão impossível

É Agosto e as lojas já estão cheias de roupa para o Inverno, e apesar de não me apetecer mesmo nada pensar em enfiar outra roupa que não seja o bikini, já vi que me espera uma missão (quase) impossível: encontrar um casaco de cabedal que seja bonito mas não seja de pele.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Tudo o que sempre sonhei

Houve um tempo em que achei que ele era tudo o que sonhei. Que se fizesse uma lista com tudo aquilo que gostava que um homem tivesse, essa lista era ele, por outras palavras. Nessa altura pensar “isto podia acontecer” provocava-me no estômago a mesma sensação que uma pá a escavar a barriga do umbigo até às costas. Mas afinal não. Ele não é tudo o que sempre sonhei. Não pode ser. Porque eu não sou, nem de longe, tudo aquilo com que ele sempre sonhou.

domingo, 3 de agosto de 2008

Estar de férias

Estar de férias é ter tempo para. É não ter obrigações. É fazer o que apetece. É ter cabeça para tudo. É querer ver o Murnau em vez do Miami Ink porque os neurónios não estão cansados e fritos ao final do dia. É estar de papo para o ar sem fazer nada e esse ser o momento alto do dia. Estar de férias é ter tempo. Senão vejamos: em duas semanas eu tive tempo para:

1. Tirar o aparelho dos dentes.
2. Ir com três miúdas para as ilhas gregas.
3. Apanhar quatro aviões e três barcos.
4. Alugar um carro e percorrer Santorini de uma ponta à outra.
5. Aprender dez palavras em grego (mas continuar sem perceber nada daquele alfabeto).
6. Conhecer o albanês mais tagarela do mundo.
7. Conhecer a cidade mais feia do mundo (Atenas).
8. Pisar o teatro mais antigo do mundo.
9. Apaixonar-me por Oia e pelas suas casinhas brancas de portas azuis encavalitas nas rochas à beira-mar.
10. Andar quilómetros debaixo de 40 graus para ver um vulcão que não é mais do que um buraco que cheira mal. (a partir de agora só me convencem se for o Vesúvio).
11. Comer iogurte grego com fruta, iogurte grego com mel, iogurte grego com fruta e mel, e iogurte grego com fruta, mel e cereais.
12. Mergulhar numa água de ferro, quente e cor-de-laranja, e estragar um bikini.
13. Falar de ex-namorados, de amor, de sexo, dos primeiros livros que se leram, dos livros que não se esqueceram, de música, de cinema, dos anos na escola, de comida, de viagens, de desilusões, de expectativas.
14. Descer 600 degraus a pé porque tive pena dos burros que fazem aquilo todos os dias com as pessoas às costas.
15. Ficar com 900 fotografias de sete dias.
16. Ler o Coetzee.
17. Ler a "Morte na Pérsia" da Annemarie Schwarzenbach".
18. Ler as "Memórias de um Louco" do Flaubert.
19. Começar a ler o "Caos Calmo" do Sandro Veronesi (e mesmo sem ter visto o filme imaginar perfeitamente o Nanni Moreti a fazer de Pietro).
20. Ir de propósito ao Bar do Guincho só para comer uma tosta.
21. Cheirar dezenas de perfumes e escolher um novo para o Inverno.
22. Descobrir uma praia nova.
23. Rever o "Paris, je t'aime".
24. Ir às farturas e cumprimentar a velhota da roulote como se nos víssemos todos os dias.
25. Estrear todos os vestidos de verão que estavam por estrear no armário.
26. Boiar no Mediterrâneo e boiar no Atlântico logo a seguir (água com oito graus a menos, sim).
27. Fazer daquelas palavras cruzadas que no fim formam um poema.
28. Pôr as três mil músicas do ipod no shuffle e ter paciência para tudo e rir-me da esquizofrenia do meu leitor de mp3: hardcore straight edge à mistura com Jacques Brel, os anos 80 das Bangles e do Billy Idol, Al Green e Boy Sets Fire, Cansei de ser Sexy e Starmarket, e todo o emo lá do baú (do tempo em que o emo era morrer de amor e não tinha nada a ver com cemitérios e olhos pintados de preto).
29. Ficar com mais sardas do que a Liv Ullmann nos filmes do Bergman.
30. Ter tempo para tudo aquilo que não tenho quando estou a trabalhar (e é Inverno). E ligar o computador só agora.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Outra coisa que me salvou o dia

O brownie do Go Natural.

A boa nova que me salvou o dia

Eu juro que, há uma hora atrás, quando entrei no metro, estava capaz de esbofetear, insultar e e pontapear a primeira pessoa que me aparecesse à frente. Uma hora no dentista, ou melhor, uma hora na sala de espera do dentista, a levar com uma velha a falar com a telenovela e com as personagens da telenovela (quem, mas quem?, é que passa o tempo todo a dizer "'vais-te inscrever no combate de boxe vais, tu és mas és parvo, nem sabes com quem vais lutar e a tareia que levas" ou "grita mulher, grita, bate na porta, ele não te ouve... ai que ela está tão fraca e ele não a ouve e não percebe que ela foi raptada, ai"). Pois, não bastava isto, já não bastavam os nervos que tamanha estupidez me estava a causar, quando fico a saber que ainda teria de esperar mais uma hora - e isto na versão optimista - para ser atendida. Esbracejei, disse que não podia, que às 21.00 tinha de estar num sítio (que era em casa, claro, mas para escrever e trabalhar, claro), que não podia ser, não podia estar ali a desesperar na sala de espera.
E foi assim que me encaminhei para o metro, capaz de espatifar a primeira pessoa que me aparecesse a frente. E foi também assim que os meus olhos deram com a boa nova que me salvou o dia e o humor: uma chamada de capa num jornal gratuito, que dizia:

Boavista pode regressar à Liga.

Alegria, alegria.

domingo, 13 de julho de 2008

Tim Walker

Pronto, estou oficialmente de boca aberta e não tarda nada enfio-me num avião para Londres, em direccão ao Museu do Design. Até dia 28 de Setembro, estão lá as fotos deste senhor.





sexta-feira, 11 de julho de 2008

Alive: Frase da noite

Vocalista dos The Hives:
If you want to fuck me, come meet me backstage. I will personally fuck you up.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Faltam 3 horas e 22 minutos

Já ninguém me pode ouvir com isto, mas é desta. Uma banda assim para o deprimente que conseguiu contrariar a minha aversão por bandas assim para o deprimente, com as letras mais maravilhosas dos últimos tempos. Hoje nada me tira deste concerto.

Boas acções

No outro dia, fiz o que se pode considerar uma boa acção. Fui ver o Cirque Invisible à Culturgest (não era isso a boa acção), e tinha convidado uma amiga. A amiga deixou-me pendurada, porque também é jornalista, claro, e os jornalistas são seres explorados, masoquistas e sádicos, que às 21.30 ainda continuam a trabalhar. Enfim, ela não conseguia sair do trabalho a tempo, e eu tinha um bilhete a mais. Encontrei um antigo colega de que gostava muito, estava com um grupo de amigos, e perguntei-lhes se queriam um bilhete. Uma rapariga veio ter comigo a dizer que tinha ouvido um rapaz andar a perguntar quem vendia entradas (porque era a última noite e a sala estava esgotada). Passado uns segundos, veio o tal rapaz. Disse-lhe que tinha um bilhete, ele perguntou quanto eu queria por ele, eu disse que nada, e entreguei-lho para as mãos. Ficou com os olhos esbugalhados, mil vezes agradecido, a chamar-me benfeitora e sei lá mais o quê. E se a história tivesse ficado por ali, eu até acreditava que as boas acções são coisas bonitas de se fazer.
Mas não. Primeiro, porque o rapaz não era giro, e deixou-me a matutar que lá se ia uma boa oportunidade de, quem sabe, conhecer um príncipe. Claro que ser giro à primeira vista não é condição fundamental. Mas ele cheirava mal. E ao fim de cinco minutos disse a frase mais proibida de todas: "Gosto muito de artes circenses, mas nunca fui ao teatro."
Para mal dos meus pecados, tive de levar com ele ao meu lado durante as duas horas do espectáculo e durante parte do intervalo (na outra parte fugi para morada incerta). E ontem, ontem ligou-me para o trabalho e apareceu-me com um convite para a festa do circo do Inatel.
Fui seca ao telefone, disse que não me lembrava do nome dele, pedi para dizerem que não estava e não agradeci nem vou agradecer. Bitchy bitchy bitchy.
Por mim, chega de boas acções.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Más notícias

Jornalista de meia tigela que eu me saí. Para mim, más notícias não são boas notícias. Não são notícias sequer. Coisas más acontecem e não me sai um pio, uma linha, um ai. Fico sem saber como contar o que parece mau demais para ser verdade quando ainda não passou, sem saber o que dizer às pessoas, o que fazer. Nestes últimos dias, houve febre lá em casa, a minha mãe sem conseguir aguentar nada no estômago, uma ida às urgências com uma hemorragia que parecia mesmo um descolamento de retina outra vez, um incêndio gigantesco que pôs em perigo o local de trabalho que, ao fim de um ano, não é só um local de trabalho. No dia a seguir, os tectos no chão, a água nos papéis, cinza no ar e a agarrar-se aos cabelos, sacos grandes de plástico preto, a tentar salvar o que se podia salvar. E no meio disto tudo, eu sem me sair um pio, uma linha. Só agora, que lá em casa voltou tudo à normalidade e que parece que dentro do azar ainda tivemos alguma sorte, posso voltar a escrever.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Um novo artigo para o código penal

Devia ser proibido e punível por lei sair da praia à uma da tarde para ir trabalhar.

Standing Next to Me

The Last Shadow Puppets

Não fui eu que disse isto

Hoje eu disse que não é preciso estar apaixonado para ter uma relação. Que não é preciso que a pessoa ao nosso lado nos tire a respiração. Que as pessoas que não nos tiram a respiração nos podem conquistar de outra maneira. Se não tivesse escrito, se não tivesse lido o que escrevi, não acreditava. Não fui eu que disse isto.
Mas o que acontece é que, quase sempre, as pessoas que nos deixam sem ar são as mesmas que não nos ligam nenhuma. E isso não é ter alguém que nos tira a respiração. É asfixia por masoquismo.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Um cérebro nem sempre inteligente

Ela diz que nunca mais lhe vai falar, e no primeiro momento em que se apanha sozinha, telefona-lhe.
Eu digo que não vou ter saudades dele porque não há nada de que ter saudades, e tenho saudades.
Ela diz que não quer saber das justificações dele para nada, que chegou ao limite da paciência, e fica toda a noite sem dormir à espera de uma mensagem.
Eu às vezes quero e sonho tanto com uma coisa, que acabo com memória fotográfica de momentos que nunca aconteceram.
E gostava de saber que parte idiota do nosso cérebro é que permite que tudo isto aconteça.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O romantismo

Concedo que não sou a pessoa mais indicada para escrever sobre o fim do romantismo. Qualquer pessoa poderá dizer (começando por mim mesma) que o romantismo não morreu, não há é quem seja romântico comigo. Ou à minha volta. Seja. Para essas afirmações, eu respondo na mesma: já não há pessoas românticas. Pessoas arrebatadas, veementes, apaixonadas, loucas, arrojadas, inconscientes, impulsivas, romanticamente desesperadas.
O Pedro defendeu no outro dia, a propósito de um espectáculo do Dylan Moran, que, ao contrário da conotação feminina da palavra romantismo, já não há mulheres românticas. Mais: nas grandes cidades, há apenas mulheres gélidas.
Dissessem-me isto há uns tempos, e a minha reacção seria dada pela costela feminista. Que os homens é que perderam todo o romantismo, as mulheres são apenas mal compreendidas. Mas como não foi há uns tempos, mas sim há uma semana, a minha reacção foi apenas esta: não há mulheres românticas, mas também não há homens românticos.
Já ninguém morre de amor. Ninguém deixa de comer porque só pensa noutra pessoa. Ninguém se fecha em casa com um desgosto amoroso. Hoje, se alguém demonstra interesse (outra palavra que matou o romantismo), é sempre comedidamente. Fica um convite no ar, não se insiste muito para não se parecer um louco obcecado, e é ver como a coisa anda. Se dizemos que agora não dá, pedem para avisar quando der. E pronto.
Claro que esta coisa de seguir os impulsos e ter actos tresloucados, tem sempre um revés maldoso. Ninguém quer uma pessoa que não deseja a cantar uma serenata à porta de casa, com um ramo de flores e dois bilhetes de avião para o Tahiti na mão. Ninguém quer alguém de quem não gosta a insistir em viver feliz para sempre. Mas desistir logo? Esperar para ver as cenas dos próximos capítulos? Andar aos beijinhos e não falar sobre isso e logo se vê? Remoer uma paixão durante meses e meses e não dizer à pessoa que está ao nosso lado que quando ela aparece o dia que era de chacha fica logo diferente?
E o pior é isto: é ser sincero e ficar com o rótulo de pessoa precipitada. É, de repente, ser um ovni só porque se disse "gosto de ti".

sexta-feira, 20 de junho de 2008

E agora?

A minha equipa desceu de divisão.
Portugal foi eliminado do Euro....
E agora? O que é que eu vou fazer?

terça-feira, 17 de junho de 2008

Encontros imediatos do terceiro grau

Ontem, para variar um bocadinho, saí às 18h em ponto. Ou seja, tive tempo para lanchar como as pessoas normais, sentadinha a uma mesa com o meu palmier coberto (quilos de açúcar e milhões de calorias em cada dentada, que eu não faço a coisa por menos). Chega a minha mãe, a única pessoa que eu conheço que é ainda mais distraída do que eu no que toca a reconhecer pessoas na rua. E é quando ela pergunta ao senhor do lado se pode tirar a cadeira, e uma voz conhecida responde:

"claro"

que eu vejo que ali ao lado, sentadinho com o seu lanche, está nada mais nada menos que................

... Eládio Clímaco. E assim de repente, com aquele

"claro"

foi o regresso ao passado: os Jogos Sem Fronteiras, o Festival da Eurovisão, os anos 80, o princípio dos anos 90, e eu de franjinha e com os olhos colados à televisão.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Primeiro pensamento

Primeiro pensamento do primeiro dia de regresso ao trabalho:

Faltam 33 dias para as férias.

domingo, 15 de junho de 2008

Amor é...

... um casal de sessenta anos, deitado lado a lado na praia, de barriga para baixo, a ler a mesma revista.

sábado, 14 de junho de 2008

Não sei...

... se é do sol na cabeça, dos mergulhos no mar, do cheiro a pão quente que apanho no caminho de casa, ou se é pura e simplesmente gulodice, mas chega a esta hora e eu juro que o meu apetite é maior do que o da Magali.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Apagar

Ter tempo dá nisto: atiro-me para cima de um sofá e agarro nos dois telemóveis, pronta a apagar as mensagens que não valem a pena recordar. Mais do que isso, pronta a apagar as esperanças teimosas que ainda vou tendo, em relação a pessoas que claramente não têm mais nada para me dar. (apagar essas pessoas é que já é mais difícil, mas eu juro que me esforço).
Cinco minutos deste exercício, e é triste. Porque percebo que isto de apagar o que não vale a pena, em vez de ser uma prova de maturidade ou de auto-confiança, do género vou-rasgar-todas-as-cartas-de-amor-que-ele-me-escreveu-e-queimar-as-fotografias-onde-estamos-juntos-porque-mereço-melhor, é quase patético: aquilo que apago é tão inócuo e tão pouco veemente que sou eu que me fico a perguntar porque é que não desapareceu da minha cabeça há mais tempo. Ou do meu telemóvel, pelo menos.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A febre do Euro 2008

Parece que não afectou toda a gente. Apesar dos maluquinhos que festejaram a primeira vitória de Portugal como se fosse já a conquista do título europeu, parece que a febre do Euro 2008 não afectou toda a gente (a mim afecta-me durante os jogos, naqueles 90 minutos não me telefonem, não me chateiem, não me façam perguntas difíceis, dêem-me um ecrã generoso, boa companhia... e um granizado de champanhe feito pela Bimbi, já agora).
Sábado à noite, vários cachecóis ao peito pelo Bairro Alto fora, e naquele espírito de quem ganhou um jogo e está de férias, o meu irmão diz ao taxista, no final da viagem:

"Adeus, boa noite. E que Portugal ganhe o Euro, hein?"

Foi pior do que dizer-lhe "e que a gasolina não pare de aumentar e o Sócrates proíba os taxistas de circular, hein?"

O senhor ficou revoltado, chocado, fora de si. Disse que o ordenado que os jogadores recebem é insultuoso. Vociferou qualquer coisa contra o facto de, só por estarem no Euro, ganharem mais mil euros por dia. E no meio de uma revolta imensa, entre uma série de palavras que eu não percebi, terminou dizendo:

"Se fosse eu a mandar era dar-lhes uma caganeira a todos."

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Bang Bang

He shot me down.

Quem me dera...

... poder dizer tudo o que me vai na cabeça, como quando tinha 15 anos.
Assim de repente, e depois das várias pessoas de diferentes fases da minha vida que encontrei recentemente, tenho um milhão de palavras entaladas na garganta.

gosto de ti.
deixas-me sem palavras.
estás mal vestida.
fazes-me rir.
às vezes odeio-te.
um elogio teu é o elogio mais importante do mundo.
desculpa não ter percebido que estavas a chorar ao telefone.
beija-me.
posso-te espetar com um alfinete a ver se acordas?
quando estou ao pé de ti sou uma pessoa melhor.
canta-me uma canção.
esse saco é piroso.
assusto-te?
preferia que não me tivesses mandado mensagem de parabéns.
no que é que estás a pensar?
tinha uma prenda para ti e não ta dei.
odeio estar de volta a isto.
essa conversa dá-me sono.
tenho saudades tuas.
não gostas de nada.
antes de ser assim já fui espontânea.
menti.

Quando entro no carro...

... e ponho a música do rádio aos gritos, das duas uma:
ou estou muito feliz
ou muito muito muito irritada.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Escrever com barulho de fundo

É quinta-feira à tarde e a CGTP tomou de assalto a Avenida da Liberdade. E ao barulho do berbequim das obras do prédio em frente, que nos acompanha há longos meses, juntaram-se os gritos de ordem

CÊ-GÊ-TÊ-PÊ!
CÊ-GÊ-TÊ-PÊ!

ou o sempre antigo mas nunca fora de moda

A LUTA CONTINUA!

E é nestas alturas que eu, que entretanto despachei um texto importante sem usar a palavra sindicalismo ou manifestação apesar do caos que nos entra pela janela, começo a perceber que, por este andar, sou capaz de escrever em qualquer lado. Dêem-me uma data de fecho e dêem-me sobretudo isto: uma semana de férias a dois dias de distância.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Sukkar Banat


Entornei salada de frutas nas calças; fiz aquelas figuras de perguntar ao funcionário da Fnac onde - ondeeee! - estava o DVD, com ele mesmo à frente dos olhos; ultrapassei o olhar condescendente do rapaz que me passou a caixa para as mãos; bloqueei aquelas máquinas maravilhosas de pagamento self service a tentar usar o multibanco... mas o Caramel é meu. E logo à noite (muito à noite, prevê-se que só lá para a uma da manhã), a Nadine Labaki e o seu Sukkar Banat não me escapam.

sábado, 31 de maio de 2008

Outro poema

má língua:
aquela que se porta bem
na minha boca

Bénédicte Houart, Vida: Variações (Livros Cotovia)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Madrid

Foi um segundo round que quase começou por nem ser. No aeroporto, pouco passava das oito da manhã, a senhora do check-in recolhe os nossos quatro B.I.s e pergunta:

"Quem é a menina.................?"

E eu, de voz sumida, a achar já ai-que-é-desta-ela-leu-ali-uma informação-qualquer-e-vem-já-aí-a-polícia-deter-me-para-interrogatório, respondi:

"Sou eu, porquê? (o 'porquê' ainda mais sumido)

"É que a menina não viaja hoje."

O B.I. caducado. Caducado há sete dias, e eu que nem tinha olhado para ele senão para dizer: "Olha eu aqui tão jovem na fotografia." Parva, parva, parva.
Melhor mesmo só outra amiga na mesma situação, e a voz da senhora do check-in novamente:

"E quem é a menina.....................? A menina também não vai viajar hoje."

B.I. também caducado. Não há sete dias mas há três - três - meses.
E de repente já não éramos quatro miúdas a caminho de Madrid para um fim-de-semana prolongado, mas duas com bilhete para Madrid e duas a fazer a maratona para ir a casa e voltar com passaporte (esse sim, só caduca em 2010, uff).
No meio disto tudo, consegui ao menos fazer algo com que sempre sonhei, que foi atirar com as malas para dentro de um táxi e pôr um ar espavorido e aflito para dizer

"Temos de ir a este sítio e voltar em trinta minutos!"
(para a próxima será o "Siga aquele carro!")

E consegui. Perante os nervos do taxista, que cobrou a bandeirada mesmo antes de chegarmos só para ganhar tempo, a atirar as moedas para cima do banco, e que se despediu de mim com um "tudo de bom" tão sentido como se eu estivesse de partida para os jogos olímpicos, consegui. Nos últimos três minutos, mas consegui. E Madrid, que quase não esteve para ser, lá se concretizou.
Por lá, foi uma cidade que não me convenceu à primeira (apesar do Prado) a tentar convencer-me desta vez: pequenos-almoços com tostadas de manteiga e doce, à espanhola; a Calle Fuencarral loja sim loja sim; as tapas da Lateral; Juan, o príncipe das Astúrias, no bar com o pior escoamento de fumo do mundo; um mocca blanco no Starbucks todos os dias; o Retiro e aquele jardim só de rosas; a t-shirt do Banksy no Rastro (e a molha que apanhámos logo a seguir); a Calle Alcala feita de trás para a frente e de frente para trás porque a nossa querida anfitriã se enganou no número da porta em cem números; e, finalmente, o regresso a Lisboa. Sem contra-relógios desta vez.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Tiradas mágicas e sorrisos amarelos

Gostava de saber o que é que vem a seguir a um sorriso amarelo, mas não sei. Pura e simplesmente não sei o que fazer ou como reagir quando ouço a piada mais seca do mundo. Pior, quando ouço a mesma piada todas as semanas, e ela não tem graça nenhuma.
À sexta-feira, já sei. Se vou comprar o jornal ao pé do trabalho, já sei o que me espera. Chego ao quiosque, peço o Público, preparo-me para agarrar na carteira e tirar as moedas, quando o senhor do estaminé dá ares de que está à procura do preço no cimo da página e diz:

Ora beeeeeeeem. Como é para si - e só porque é para si, hein? - é um euro e trinta e cinco.

Exactamente o preço que lá está marcado. E é isto sempre. Sempre sempre que lá vou.
Nesta última sexta-feira então foi irreal. Já estava eu com a cara número 42, a pedir a todos os santinhos que ele não se saísse com aquela , que-eu-já-tenho-um-dia-difícil-porque-sexta-é-dia-de-fecho-e-esta-é-a-minha-hora-de-almoço-e-passo-bem-sem-pretendentes-a-comediantes-sem-graça-nenhuma, quando a criatura não só se sai com a mesma de sempre

Ora beeeeeeeem. Como é para si - e só porque é para si, hein? - é um euro e trinta e cinco

como ainda há alguém, que só pode ser alguém com muito pouca sorte na vida, que diz:

Epá, você é um mãos largas.

Por isso é que eu digo que não sei - não sei - o que é que vem a seguir ao sorriso amarelo. Não me sai nada, nem uma ideia genial nem uma tirada ainda mais mágica para resposta.
Como há bocado: ligo para um restaurante indiano, a perguntar se têm take away e como é que funciona, e quando pergunto se posso encomendar tudo o que está na ementa, o senhor indiano lá do outro lado da linha responde:

Sim, se quiser até me pode encomendar a mim.

E eu, claro, o que é que eu fiz? Respondi: "Haaaaaa haaaaaaa..."
Que é a versão telefónica do sorriso amarelo.
Pois.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Um dia

Eu vinha contente, vinha com um brilhozinho nos olhos dizer que voltei a acreditar em finais felizes, e em pessoas que não nos dão um estalo na cara quando menos esperamos. Eu vinha quase cantarolante, leve, positiva, toda eu rouxinóis a cantar só porque uma amiga é a pessoa mais feliz do mundo por causa de um homem que até o pequeno-almoço lhe leva à cama.
Eu vinha fazer um elogio ao amor mesmo sem ter nada a ver com isso. Como esperei um dia, já não venho. Um dia basta para alguém que conhecemos e de quem gostamos ser magoado a valer.
Infelizmente.

sábado, 17 de maio de 2008

Uma dúvida

Se ele não me vê quando não está comigo, será que consegue perceber que a minha cara se ilumina quando ele aparece?

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Depois do primeiro cabelo branco...

... é sempre a descer.

Comprei hoje as minhas primeiras lentes de contacto.

Bombons

Todo o dia como o dia lá fora: cinzenta, triste, a remoer cá dentro uma desilusão que não é de agora mas que me magoa como se fosse (sei lidar com desilusões de amores, de trabalho, não sei lidar com desilusões de amigos). À minha volta, outras pessoas tristes, mais tristes do que eu. E uma gritaria que todos ouvimos vezes e vezes sem conta mas que não devia ser connosco.
Para compor o dia e o estado de espírito, os The National nos ouvidos em repeat, o menino a cantar
"Sometimes you get up and bake a cake or something,
Sometimes you stay in bed.
Sometimes you go la di da di da di da da
Til your eyes roll back into your head"
(e eu já sei que amanhã vou "la di da di da da", assobiar para o lado como se nada fosse, ignorar o que não me apetece resolver).
Ao chegar a casa, uma bela caixa de bombons embrulhada com um laço. E de repente o meu dia menos como o dia lá fora. Truuuuufas!
Agarrei numa mais bonita do que as outras, em chocolate branco, redonda como um berlinde e polvilhada com um açúcar brilhante. E antes que me pudesse sequer deliciar com o chocolate a derreter, zás, explodiu-se a trufa bonita na boca, cheia de um licor mais amargo que óleo de fígado de bacalhau e tão alcoólico que acho que se me fizerem agora o teste do balão, acusa.
Tenho medo de voltar à caixa e escolher outro bombom. Porque afinal os chocolates são como a vida real: tão bonitos, com tantas promessas, e explodem quando menos esperamos. Amargos que sei lá.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Eu bem digo...

... que sou uma pessoa que não está bem.

No outro dia deixei passar a estação de metro em que devia ter saído, e nem a vi.
Hoje acabei de atirar uma T-shirt da Carhartt pela conduta do lixo.

terça-feira, 6 de maio de 2008

De fininho

"Love creeps up on you. She puts her hands over your eyes and asks you to guess who she is."*

Hoje, a folhear a agenda, dei com esta frase. Escrevi-a no momento em que a ouvi. Porque esta ideia de o amor chegar de fininho e fazer connosco o jogo infantil de pôr as mãos em cima dos olhos e pedir para adivinhar quem é, é uma imagem muito muito bonita.
Mas eu pergunto-me... Esse chegar de fininho é suposto ser assim tão de fininho e tão devagar que não há maneira de dar por ele?


* roubado a Presumption, dos Third Angel

domingo, 4 de maio de 2008

Antes de ter nascido

A propósito dos 40 anos do Maio de 68, o Público foi a seis faculdades saber se os estudantes sabiam o que tinha sido o Maio de 68. Em 309, 60% não sabiam, sendo que a diferença era abissal entre os que pertenciam a faculdades de ciências sociais e humanas (75% sabiam o que era) e os que pertenciam a universidades técnicas (70% não sabiam). Tirando as várias pérolas que os jornalistas ouviram e transcrevem sobre o que foi a revolta de 68 – “o primeiro ano em que se comemorou o 1º de Maio” (!) ou “foi quando o Marcello Caetano subiu ao poder e se discutiram subsídios, férias e políticas de habitação” (!!!) – houve uma aluna do Técnico que se saiu com esta:

“Em 68 ainda não tinha nascido, como é que querem que saiba?”

Oh, claro, que parvoíce de pergunta. Para quê estudar milhares de anos de História se aconteceram antes de termos nascido? Qual o interesse, se aconteceu há 30, 40, 600 anos? Queimem-se já os manuais. Faça-se outra revolução cultural.

Copeland #1

“When they come knocking on your heart’s door
Choose the one who loves you more.”

Acasos e probabilidades

Fiz as contas por alto, e as probabilidades que eu tinha de o encontrar naquele dia eram de 3%. Três para cem. Ou seja, ínfimas. Mas encontrei-o naquele dia. Mal o vi, mas encontrei-o. Era ele e era real, e de repente percebi que tinha saudades. Outra vez. Já as tinha há uns meses, depois obriguei-me a deixar de ter, agora era como quase tudo o que me deixa triste: não pensava nisso. Mas ele passar por mim e tornar reais as hipóteses tão ínfimas que tínhamos de nos ver, relembrou-me que tinha saudades. E agora é pior, porque não só as tenho novamente como tenho mais do que tinha nessa altura.
Veio-me parar no outro dia à secretária um livro que diz que o acaso comanda as nossas vidas. Não o li nem sei como o autor defende essa tese, mas à partida estou de acordo. Todas as merdinhas e mais alguma condicionam a nossa vida. São tão ou mais importantes do que as nossas escolhas, embora inconscientes. Como por exemplo nesse dia: se eu não tivesse parado no semáforo xis por ir a mais de 50, se não tivesse parado para pôr gasolina, se não tivesse ido até ao miradouro olhar para o boneco durante os minutos precisos em que o fiz (e etc), nunca me tinha cruzado com ele naquele ponto em que me cruzei, talvez nem o tivesse visto e não me tivesse lembrado dele desta maneira. Não acredito em destino (acredito na p*** da ironia, é no que acredito!), mas estes acasos deixam-me sempre a pensar.
Desde sempre que tenho uns “pressentimentos” – não sei bem como lhes chamar –, umas sensações esquisitas. Antes de o meu avô morrer, tinha 9 anos, andei numa tristeza profunda motivada por razão nenhuma. Nunca a tinha sentido e, quando a voltei a sentir, outra pessoa morreu. Quando um ex-namorado que era namorado na altura e era muito importante, teve um acidente grave na auto-estrada, sem fazer sequer a mínima ideia que ele estava na estrada, ao mesmo tempo e a quilómetros de distância comecei-me a queixar de dores horríveis nas costas, ao ponto de ter de me levantar da cadeira de um restaurante por já não aguentar mais. Um restaurante onde já tinha ido e onde voltei mais tarde, e onde me sentei nas mesmas cadeiras sem problemas nenhuns. Foi o mesmo ontem: contra todas as probabilidades, no fundo também achava que o podia encontrar. É esquisito, não faz sentido, mete um bocadinho de medo e é ridículo, mas é verdade.
Há coisas na minha vida que não vivi mas que encaro com tranquilidade, porque sei que vou viver mais cedo ou mais tarde. Simplesmente sei que sim e nem duvido. (até agora tem acontecido sempre da maneira como penso, sim.) Ele, o das improbabilidades estatísticas, ele é a minha grande incógnita. Talvez por haver tão poucas hipóteses de o encontrar, talvez por não o conhecer o suficiente para me desiludir e descobrir coisas que me irritem ou características incompatíveis. Só sei que, nos cinco minutos que ele demorou a responder à minha mensagem, a confirmar se era ele ou não que tinha passado por mim de carro, senti aquela sensação idiota que sobe pelo peito acima, que me dá vontade de ouvir música aos berros e que me faz pensar que nunca mais vou precisar de dormir na vida. Durou cinco minutos. Não devia sequer ter surgido. Porque é que surgiu? Também não consigo dizer. Acho que gostarmos de alguém acaba por ser muito fruto do acaso também, no sentido em que é quase irracional (podemos enumerar uma serie de razões para gostar de alguém, do género ‘gosto dele porque, porque e porque’, mas no fim resume-se tudo a um ‘gosto dele porque sim).
Mas agora pergunto-me: se aparentemente é tão fácil, num dia igual aos outros, de repente sentir um turbilhão assim, onde é que essa sensação anda nos outros dias?

sexta-feira, 2 de maio de 2008

One song for the ride

Directamente saída do novo álbum dos Disco Ensemble, uma banda finlandesa que veio cá tocar há uns anos e me deixou de queixo caído.
Truliru, até breve.

Pus cinco livros na mala...

...E cerca de 15 revistas também. Eu sei que só tenho quatro dias livres, que vou já aqui para o lado e que também quero passar tempo na conversa ou a não fazer nenhum. Mas sabe bem pensar que vou ter tempo e cabeça para ler cinco livros e 15 revistas, e hoje anoitecer na melhor pizzaria da Ericeira (é o que dizem) à conversa com um amigo.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Fim-de-semana prolongado

Foi assim que desliguei o carro e troquei os ténis pelos chinelos. Foi assim que senti aquele calor e sol imenso, que nem cheirava a mar, cheirava a quente. Foi assim que fui à praça e a senhora dos legumes e das guloseimas me cumprimentou como quem não me via há meses mas agora é que vai ser. Foi assim que arejei a casa como deve ser, e abri os estores até à última ripa, e o sol, já muito mais alto, entrou pelo quarto e pela corredor fora. Foi assim que voltei a adormecer na praia e a só acordar com os gritos das criancinhas (ou dos pais das criancinhas). Foi assim que o café a que vou sempre voltou a ter gelado de framboesa e eu a comer uma bola num copo e a ficar com os lábios cor de rosa. Foi assim que à noite me pude sentar na varanda a escrever e nem uma aragem, só calor e silêncio. Foi assim que as calças de ganga, no domingo à noite, pareceram apertadas e desconfortáveis, por causa do sal e de três dias sem outra roupa que não o bikini.

Foi assim que fiquei outra vez cheia de sardas, como é hábito sazonal. E foi assim que fiquei, oficialmente - e para que conste - em modo verão.

The Man I Love

Some day he'll come along,
The man I love
And he'll be big and strong,
The man I love
And when he comes my way
I'll do my best to make him stay.

He'll look at me and smile
I'll understand
And in a little while,
He'll take my hand
And though it seems absurd,
I know we both won't say a word

Maybe I shall meet him Sunday
Maybe Monday, maybe not
Still I'm sure to meet him one day
Maybe Tuesday will be my good news day

He'll build a little home
Just meant for two,
From which I'll never roam,
Who would - would you?
And so all else above
I'm waiting for the man I love.

Sou tão fácil...

Gosto imediatamente de uma pessoa se vejo que ela gosta da minha cadela.

terça-feira, 22 de abril de 2008

A primeira vez

Hoje, ao falar de Jacques Becker, um realizador português à beira dos 70 anos disse aos seus alunos:
"Se nunca viram nada dele, vejam os filmes que ele fez, sobretudo o Casque d'or e o Touchez pas au grisbi ". E parou, para continuar:
"Tenho inveja vossa. Se nunca tiverem visto. Inveja dessa primeira vez. Eu já só posso recordar, rever."
Isto deixou-me a pensar numa série de coisas... como é costume na minha cabeça, das mais problemáticas às mais parvas, incluindo naquela música dos Anberlin em que ele canta "I wanna be your last first kiss", verso que achei, durante muito tempo, o mais bonito que me poderiam dizer. Claro que são coisas diferentes, o maravilhamento da descoberta de um autor de eleição ou de uma obra-prima, e o começar uma história de amor. Mas a forma como eu encaro esse simples verso agora (antigamente era um sinal do maior devoção possível, hoje é um sinal de um apaixonado possessivo em potência), demonstra como a ideia de só haver uma primeira vez, uma só, já não é para mim o mesmo que era há uns tempos (ou então é apenas mais uma prova de que me encontro realmente no grau zero do romantismo).
Hoje, e cada vez mais, é quase angustiante pensar que só há realmente uma primeira vez para tudo. Que o que é complemente novo num momento, no seguinte já não o vai ser, e que é assim até à exaustão, com tudo. Repetição atrás de repetição.
Acho que isso explica porque é que é tão irritante e tem um travo tão desmancha prazeres quando nos contam o final de um filme no momento em que ainda mal o começámos a ver, ou porque é que é quase sempre tão desapontante experimentar algo que já tem, à partida, expectativas mais altas que o Everest.
Não sei... Acho que, resumindo e concluindo, fiquei com vontade de ver qualquer coisa do Jacques Becker. Nunca vi nada dele.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Minutos valiosos

Nunca gostei das estatísticas que, a partir de um valor absoluto, dividem os resultados por milhentas categorias e apresentam os valores esmiuçados como tão certos quanto os originais. Mas hoje, ao ler um artigo sobre o Cristiano Ronaldo na Visão, gostei ainda menos.
A partir de dados retirados da revista France Football, fiquei a saber que o Cristiano Ronaldo ganha, por ano, 19.5 milhões - milhões! - de euros. Isto já roça quase o insultuoso, mas dividido pelas tais milhentas categorias, ainda se torna mais penoso para o comum mortal que anda a penar todo o mês e a esticar cada centavo. Pois 19,5 milhões de euros são, nada mais nada menos que:
1.625 milhões por mês;
54.166 por dia;
6.770 por hora;
113 por minuto.
Cento e treze euros por minuto??? Cento e treze euros? Por minuto? O mesmo minuto que se gasta assim, num tirinho? Num minuto sou eu capaz de gastar 113 euros, agora ganhar… já é mais difícil.
Eu não percebo. Não percebo. Não percebo porque é que queimei as minhas pestaninhas a tirar um curso, porque é que trabalho horas extraordinárias, às vezes fins-de-semana, para isto. Para nem sequer aspirar à geração mil euros, porque para os mil ainda me falta um bocadinho.
E não percebo, não percebo, não percebo, Cristiano Ronaldo, porque é que quando me viste no CCB, não te deu o piripaque e não me quiseste adoptar. Eu tinha dito que sim.

sábado, 12 de abril de 2008

Almoços solitários

Quando aproveito a hora de almoço para tratar de burocracias, como ontem, é certo e sabido que vou ter de almoçar sozinha, a correr. Confesso que me deprime um bocadinho a ideia da garfada solitária, o não ter para onde olhar (em casa não me importo nada, tenho a televisão e mil dvds para ver), o não ter com quem falar. Nem é a ideia de estar sozinha, que tenho aprendido a valorizar nos últimos anos e que até me sabe bem, ao ponto de ter saudades quando é demasiada a informação e as solicitações e pouco o tempo para parar, pensar e estar sem ninguém por perto. Dizia eu que nem é a ideia de estar sozinha, é antes um desconforto de não saber onde pousar os olhos, de desvirtuar um acto que devia ser comunitário e de haver uma tendência para engolir tudo sofregamente, o que não é nem de longe aconselhável e me deixa quase sempre com azia.
É por isso que, quando tenho de ir almoçar sozinha, tenho um truque: procuro um mesa junto a um grupo (duas pessoas bastam) que esteja animado, e sento-me ao lado para ouvir a conversa. Não é bonito e vai contra uma das regras básicas das boas maneiras, eu sei, mas também nunca ouvi nada de especial - as pessoas falam da manhã que tiveram, do tempo, do fim-de-semana, do trabalho, aqui e ali de relações, de ralações e projectos. É uma distracção, de certa forma uma companhia.Mas ontem, quando na mirada (in)discreta procurei esse tal lugar, constatei que a grande maioria das pessoas estava a almoçar sozinha. Mesa sim mesa sim, num daqueles espaços abertos de restauração de centro comercial, seguiam-se almoços solitários, rápidos. Não sei se as razões eram as mesmas que as minhas, se toda a gente resolveu aproveitar para tratar de burocracias, se pura e simplesmente não têm companhia ou se estão fartas umas das outras e precisam desse tal tempo para parar, pensar e estar sem ninguém.Sei que foi uma constatação triste. Aqueles olhos parados num ponto do infinito ou distraídos numa revista ao lado do prato, no meio de um espaço tão cheio de gente, ficaram-me na cabeça. Talvez porque sinto actualmente uma solidão completamente diferente da que alguma vez senti até hoje, aquela solidão que a Clarice Lispector descreveu tão bem e que tem a ver com o facto de ninguém ser eu a não ser eu, e ninguém poder estar dentro da minha cabeça a não ser eu. O que não seria necessariamente mau ou triste, se não se desse o caso de nem eu, que sou a única pessoa que está na minha cabeça, perceber o que quero.