segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Expectativas e certezas

Eu dizia que me ia casar aos 23 anos, no dia 23 de Junho. Dizia isto desde sempre, e brincava com isso quando fiz 20 anos, porque afinal os 23 já não pareciam tão distantes como eram aos 12, e a minha vida, então, estava muito longe do sítio onde eu pensava que ia estar aos 23. Eu dizia que me ia casar aos 23 anos, no dia 23 de Junho, e no dia 22 de Junho desse ano, o meu amor virou-se para mim e disse a frase fatídica: “Temos de falar”.
Nada foi como eu pensava, nada verdadeiramente é como pensamos. E isto serve para falar sobre expectativas. Porque aos 29 anos, aos 27 anos, ouço amigas a falar no relógio biológico. Amigas a fazer contas à vida e ao amor e ao trabalho, e a ver que não está nada no lugar onde devia. (Amigas que não estão felizes e que são tão bonitas que eu me pergunto que treta é essa do universo e das boas energias quando pessoas assim estão sozinhas).
Cada vez mais acredito que quanto mais coisas sabemos, quantas mais certezas temos, mais a vida se vai armar em bruxa maldita e fazer exactamente o contrário (a lição dos 23 anos ficou-me para a vida, nunca mas nunca mais me vão ouvir atirar uma data para o que quer que seja). A questão é que quanto mais pintamos a realidade, quanto mais imaginamos o príncipe encantado e o emprego de sonho e a casa perfeita, mais a casa parece pobretanas, o emprego uma merda, o príncipe um sapo verde com verrugas. Porque faz parte de nós sermos descontentes. Pôr defeitos em tudo. Achar que o que era bom cinco dias antes, afinal é "assim-assim", “normalzinho”, "nada de especial". E cada vez mais começo a achar que, embora seja bom e recomendável ter sonhos, padrões, bitolas elevadas, expectativas, é melhor não pensar demasiado no futuro ou ter demasiadas certezas.
Eu dizia, por exemplo, que queria trabalhar num sítio onde afinal odiei estar (e aquele de que mais gostei até hoje foi o mais improvável de todos).
Eu dizia que queria um namorado vegetariano. Ou que gostasse de praia tanto como eu, e fosse capaz de ir ao mar em Outubro, como eu (ok, nesta questão não era tão inflexível, bastava-lhe pôr os pezinhos na areia). Um amor que gostasse das músicas que eu gosto. Que lesse sempre o que eu escrevo. E apaixonei-me por um namorado cuja comida preferida é costeleta de novilho, e que este verão terá ido à praia umas duas vezes, no máximo.
Expectativas furadas? Talvez. E de certeza que vão aparecer outras (já estão a aparecer) que ele também não irá cumprir, como eu não irei cumprir as dele. Mas depois, acontecem coisas como esta: não é vegetariano mas leva-me a restaurantes onde sabe que há alguma coisa para mim. Não gosta dos Copeland mas envia-me o Blue Moon cantado pela Ella Fitgerald. Depois do Gomorra e de outros filmes sobre a máfia, vê a Amélie comigo, vê o Sexo e a Cidade, vê o Lipstick Jungle. E esta quinta, nem tem dúvidas em me acompanhar à Culturgest para ver o Tim Etchells, mesmo falado em flamengo.
Por isso é que me parece que expectativas demais são desilusões a mais, desnecessárias. Ou são coisas que pura e simplesmente nos passam ao lado, porque nem as colocamos em hipótese. E por isso é que também me parece que quanto menos certezas tivermos em relação ao que será a nossa vida no dia xis do ano xis, melhor será o presente, e melhores poderão ser as surpresas.

29 comentários:

As Mulheres Não disse...

Eu tenho a certeza de que estarei sozinho daqui a cinco anos. Daqui a cinco meses. Daqui a dois anos. Todas as datas até ao final da vida. É uma certeza, não é uma expectativa. Sei que vai acontecer e pronto, organizo a minha vida à volta disso. Porque há coisas que faltam e hão-de faltar sempre. Sempre. Até ao fim. E, ao contrário de ti, não me hei-de desiludir.

macaca grava-por-cima disse...

So true, esta reflexão sobre expectativas!!!

Eu por acaso sempre disse que casaria com 28 e não sei por que artes mágicas mas não é que aconteceu mesmo assim...???

Dani disse...

quando era pequena dizia que aos 20 anos queria estar casada e grávida... agora tenho 18 e quero essas ideias beeeeem longe de mim :P
e, pá, vê lipsitck jungle?? e sexo e a cidade?? que bela preciosidade! :P

Alexandra disse...

Adorei esta reflexão e concordo a 100%. :)
Obrigada por este texto e todos aqueles maravilhosos que já aqui foram escritos. Beijinho*

paperdoll disse...

tão verdade...
apesar de tudo isso, tento ver o lado positivo: a minha vida nunca corre como eu espero (e quase nunca corre bem)... mas pelo menos não é aborrecida.
:)

Joanika disse...

Adorei o texto! TRUE TRUE TRUE!!!
Eu também dizia que aos 23 era A idade para eu casar...mas agora que estou a fazer os 21, já digo é que não me caso...pelo menos num futuro proximo.

crème fraîche disse...

o meu namorado é vegetariano, eu não, o meu namorado é fanático da máfia também, eu não, o meu namorado é sXe, eu não.

and still, we were made for each other.


talvez como tu e o teu =)

R.L. disse...

:) gostei muito, porque sim, idealizamos mil e uma coisas e acabamos muitas vezes ao lado de pessoas completamente diferentes, ou ao lado das que idealizamos e afinal n nos fazem felizes...
gostei meeesmo de te ler. *

Anónimo disse...

o teu ex devia mesmo ser um lixo:)


parabens es linda!

Neni disse...

"Muito mais é que nos une, que aquilo que nos separa."
:)

Penny Lane disse...

Grandessíssimo texto, adorei! Nada mais que a verdade! As vezes só é difícel pôr em prática e saber baixar as expectativas elevadas a um nível mais acessível! :)

Ana Carolina disse...

Um dos meus escritores preferidos, nas paginas finais de "Os Maias", sintetizou com a clareza que lhe é tao peculiar os designios da Vida: "Falha-se sempre na realidade a vida que se planeou com a Imaginaçao. Diz-se vou ser assim, porque a beleza está em ser assim, e é-se invariavelmente assado - como diria o pobre do Marques - por vezes melhor, mas sempre diferente..."

Emma Bovary disse...

Oh girl, se eu fosse tudo o que imaginei aos 12 anos já tinha sido pop singer, médica, veterinária, já tinha sido aquela mulher do anúncio do Ferrero Rocher, já tinha ganho um Formula 1 e já tinha dois Oscares e três Grammys.

Não temos tudo o que queremos mas a vida dá-nos (a maior parte das vezes) o que precisamos. :)

Leididi disse...

Vou pensar nisso. Tens toda a razão. Mas às vezes a razão foge-me por entre os dedos. Vou ali respirar fundo e já volto, fresca como dantes. Um beijinho do tamanho do mundo para ti.
PS- Não sei se este post foi inspirado em mim, mas assentou-me que nem uma luvinha, e por isso, toma lá mais um beijinho. E um abracinho.

juliette disse...

Sim, foi sim. Ainda bem que percebeste sem ser preciso dizer.
Gosto de ti. Beijinhos tb*

Carla disse...

Acompanho o teu blog há já alguns meses, mas este post fez-me ler e reler estas palavras, até porque eu achava que casava aos 25; ainda não os tenho, mas definitivamente é algo que não vai acontecer, felizmente. ainda tenho muita coisa para fazer antes disso, se é que se realiza, pois não está nos meus horizontes, mas como nunca se sabe o dia de amanhã....

continuação de boa escrita
beijinhos

Mi @ disse...

eu sou igual a ti :Z mas com 19 anos..lol

quero me casar no dia que fa,co 22 anos, no dia 22 de julho...

mas nao m parece q isso va acntecer...acho q antes d casar preciso d uma rela,cao seria q dure mais doq meia duzia de meses...e isso nao se avizinha !! LOL



beijinhoss **

Nelson A. Soares disse...

"...quanto mais coisas sabemos, quantas mais certezas temos, mais a vida se vai armar em bruxa maldita e fazer exactamente o contrário (...)"

É mesmo isto. A vida mais do que nos pôr à prova, derrota-nos a crença que temos no que quer que seja...


Stay Well

aka pink disse...

Nem mais, bem dito!

Maresia disse...

Gostei muito do seu texto... Tenho 40 anos e as certezas foram desaparecendo à medida que os anos foram avançando... Duas palavras risquei do meu dicionário: sempre e nunca...

João disse...

Gostei :)

banana disse...

Ao ocntrário, eu nunca tive grandes expectativas, prefiro esperar para ver como vai ser.
E é óptimo, todos os dias são bons e o de amanhã é ainda a melhor!
Planos a curto prazo, e poucos, é o que se quer.
(Claro que tb queria um namorado sem pêlos e calhou-me um peludíssimo... mas de resto é perfeito!)

cdgabinete disse...

Estou totalmente de acordo...
E acho que quanto mais se aprecia o presente, menor é a tentação de criar expectativas altíssimas... que estão na origem de tantas desilusões

Anónimo disse...

Sábias palavras... tenho 42 anos, também risquei o sempre e o nunca, aprendi a gostar de tudo o que tenho depois de ter aprendido que por vezes fazemos demasiados esforços para alcançar o que pensávamos gostar e que "por vezes cruzamo-nos com os destino nos caminhos que escolhemos para o evitar"(in O Panda do Kung Fu)
Eva

Rafaela disse...

Tão bem escrito, tão bem exposto...o que torna um escritor "bom" é exactamente isto: escrever coisas que todos sentem e todos sabem de experiência e de senso comum e torná-las num orgasmo intelectual para aquele que a lê. Obrigada.

pinky disse...

é caso para dizer...não faças planos para o futuro porque o futuro pode ter planos para ti...

A Girl disse...

Adorei este texto, este blog.
Este texto foi mesmo a gota de àgua. :)
Voltarei ..

A oitava estrela a contar da lua disse...

Quanto mais sei e conheço mais eu desejo ser um perfeito ignorante...também tive planos para os 23...hoje tenho 30 e vivo um amor quase impossível...não marco datas...deixo as coisas acontecerem...e quando acontecem luto por elas como se fosse o último dia da minha vida...Vou passar mais vezes por aqui Juliette!

Anónimo disse...

Não podia concordar mais contigo!

Nice blog , )


sayuri