domingo, 4 de maio de 2008

Acasos e probabilidades

Fiz as contas por alto, e as probabilidades que eu tinha de o encontrar naquele dia eram de 3%. Três para cem. Ou seja, ínfimas. Mas encontrei-o naquele dia. Mal o vi, mas encontrei-o. Era ele e era real, e de repente percebi que tinha saudades. Outra vez. Já as tinha há uns meses, depois obriguei-me a deixar de ter, agora era como quase tudo o que me deixa triste: não pensava nisso. Mas ele passar por mim e tornar reais as hipóteses tão ínfimas que tínhamos de nos ver, relembrou-me que tinha saudades. E agora é pior, porque não só as tenho novamente como tenho mais do que tinha nessa altura.
Veio-me parar no outro dia à secretária um livro que diz que o acaso comanda as nossas vidas. Não o li nem sei como o autor defende essa tese, mas à partida estou de acordo. Todas as merdinhas e mais alguma condicionam a nossa vida. São tão ou mais importantes do que as nossas escolhas, embora inconscientes. Como por exemplo nesse dia: se eu não tivesse parado no semáforo xis por ir a mais de 50, se não tivesse parado para pôr gasolina, se não tivesse ido até ao miradouro olhar para o boneco durante os minutos precisos em que o fiz (e etc), nunca me tinha cruzado com ele naquele ponto em que me cruzei, talvez nem o tivesse visto e não me tivesse lembrado dele desta maneira. Não acredito em destino (acredito na p*** da ironia, é no que acredito!), mas estes acasos deixam-me sempre a pensar.
Desde sempre que tenho uns “pressentimentos” – não sei bem como lhes chamar –, umas sensações esquisitas. Antes de o meu avô morrer, tinha 9 anos, andei numa tristeza profunda motivada por razão nenhuma. Nunca a tinha sentido e, quando a voltei a sentir, outra pessoa morreu. Quando um ex-namorado que era namorado na altura e era muito importante, teve um acidente grave na auto-estrada, sem fazer sequer a mínima ideia que ele estava na estrada, ao mesmo tempo e a quilómetros de distância comecei-me a queixar de dores horríveis nas costas, ao ponto de ter de me levantar da cadeira de um restaurante por já não aguentar mais. Um restaurante onde já tinha ido e onde voltei mais tarde, e onde me sentei nas mesmas cadeiras sem problemas nenhuns. Foi o mesmo ontem: contra todas as probabilidades, no fundo também achava que o podia encontrar. É esquisito, não faz sentido, mete um bocadinho de medo e é ridículo, mas é verdade.
Há coisas na minha vida que não vivi mas que encaro com tranquilidade, porque sei que vou viver mais cedo ou mais tarde. Simplesmente sei que sim e nem duvido. (até agora tem acontecido sempre da maneira como penso, sim.) Ele, o das improbabilidades estatísticas, ele é a minha grande incógnita. Talvez por haver tão poucas hipóteses de o encontrar, talvez por não o conhecer o suficiente para me desiludir e descobrir coisas que me irritem ou características incompatíveis. Só sei que, nos cinco minutos que ele demorou a responder à minha mensagem, a confirmar se era ele ou não que tinha passado por mim de carro, senti aquela sensação idiota que sobe pelo peito acima, que me dá vontade de ouvir música aos berros e que me faz pensar que nunca mais vou precisar de dormir na vida. Durou cinco minutos. Não devia sequer ter surgido. Porque é que surgiu? Também não consigo dizer. Acho que gostarmos de alguém acaba por ser muito fruto do acaso também, no sentido em que é quase irracional (podemos enumerar uma serie de razões para gostar de alguém, do género ‘gosto dele porque, porque e porque’, mas no fim resume-se tudo a um ‘gosto dele porque sim).
Mas agora pergunto-me: se aparentemente é tão fácil, num dia igual aos outros, de repente sentir um turbilhão assim, onde é que essa sensação anda nos outros dias?

4 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

A coisa mais bela da vida é ser feita de desencontros. Agarrar o momento ou deixá-lo fugir, não é uma questão de opções, mas essencialmente de acasos. Foi assim que construí a minha vida e, chegado a esta idade, posso dizer "SOU FELIZ!"
Tudo poderia ter sido diferente, mas foi assim que as coisas aconteceram. Para quê passar a vida a perguntar " e se eu tivesse feito assim?"

Maria Inês disse...

E tive de responder, porque ao ler o teu texto senti exactamente o turbilhão de emoções de que falas. Porque me fizeste pensar nele, e ainda outro dia o vi... (o meu "ele", não o teu). E quais eram as probabilidades disso acontecer? Não sei, poucas, muito poucas. Passámos um pelo outro de carro. Nem sei se ele me viu (e não mandei mensagem a confirmar porque ele decidiu que era "melhor" cortar relações comigo, e fê-lo, há 3 meses), mas eu passei por ele, e ia a conduzir e a cantar (eu), e quando o vi não pude cantar mais porque fiquei sem ar. Completamente sem ar. E se calhar ele nem me viu... E eu já não o via há algum tempo, e já me estava a esquecer que ele existia... (e isso fazia-me bem) e lembrei-me, e senti saudades. Porque também gosto dele, porque sim. Mas ao contrário de ti não posso enumerar razões para gostar (qui çá uma ou duas...) é mais fácil enumerar razões para não gostar dele. E no entanto gosto.

juliette disse...

É incrível como o nosso próprio corpo reage fisicamente a um estado emocional (e refiro-me à falta de ar de que falas). Como também é incrível que haja todas as razões para não gostar de alguém, e ainda assim gostamos desse alguém. Isso vai dar à mesma questão: gostamos porque sim, pronto, e quanto menos se entende isso, quanto mais irracional é o sentimento, parece-me que mais difícil é esquecer uma pessoa.
Obrigada pelo comentário que deixaste aqui. Ainda bem que o fizeste.

Maria Inês disse...

De nada. Tinha de o fazer. =) É verdade, às vezes quase que o esqueço... e quando me lembro dele sei que isso nunca irá acontecer. É mesmo irracional, por vezes parece até demente. Enfim, acho que não há nada a fazer...
Beijinho!