quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Há dias em que sinto que isto das nove às cinco dá cabo de mim

Que o ar condicionado me seca até ao tutano e que um dia vou chegar a casa com as lentes de contacto tão coladas aos olhos que nunca mais vão sair. Que já não vou conseguir correr ao final do dia porque as minhas pernas vão estar em forma de cadeira, de estar tanto tempo sentada. Que as dioptrias  vão galopar incessantemente até ter de usar uns óculos fundo de garrafa que me vão fazer os olhos ainda mais pequeninos do que já são (e eu que sempre sonhei ter uns olhos à desenho animado japonês, mas mais pestanudos). Que vou fazer contas e vou perceber que os meus dias têm mesmo 24 horas mas nenhuma coisa de especial, e olha, lá se foi mais um. Que vou estar velha antes do tempo e que não me lembro de ouvir os meus pais queixarem-se disto tanto como ouço a minha geração, porque é que será? Em dias como esse, como hoje, esqueço-me que até tenho um trabalho que não é monótono e ai de mim, podia ser muito pior. Em dias como esse, como hoje, aterra-me um livro na secretária chamado A Arte do Inconformismo, de um tipo que largou o trabalho das nove às cinco e vive do que gosta a viajar pelo mundo, e pergunto-me que raio de ironia distorcida terá Deus ou o universo para se rirem das minhas angústias dessa maneira. Sinto-me um macaco numa jaula a olhar para as bananas lá no alto e a culpa é toda do autor desse livro e de uma parábola que está na contracapa e que é demasiado grande para estar aqui a reproduzir. Nunca gostei de macacos, desde pequena, e só estou a ver uma solução para este estado de espírito que se apoderou de mim com toda a força: vou comprar todos os cachos de bananas que houver no supermercado e na frutaria ao lado de casa. Porque posso estar numa jaula, sim, mas ao menos a jaula dá-me dinheiro para comprá-las e para oferecê-las e para pô-las na despensa, se quiser. Tira-me tempo e disponibilidade mental para as saborear, é verdade, mas isso vou ter de continuar a arranjar para mim. É uma promessa que fiz a mim própria nestas férias e, já se sabe, as promessas são para se cumprir.

4 comentários:

Ana 100 Sentidos disse...

O que eu queria era deixar de sre o macaco na jaula e passar a ser o gorilo na floresta.
Sinto-me como tu com a única diferença de que não consigo já satisfazer-me apenas com a possibilidade de ter dinheiro para comprar as bananas que quiser.
Prefiro não ter banas e e ir comendo o que encontrar por esse selva fora.
Afinal sempre me disseram que neste mundo tudo é uma questão de comer ou ser comido. :)

Aflito disse...

Isso é a filosofia de vida da Elsa Raposo.

Fabi disse...

Pelo menos tens ar condicionado...

Alexandre disse...

lolol es a elsa raposo?