Há uns tempos, uma amiga que é casada perguntava-me como estava a ser viver sozinha e se não tinha saudades de estar sentada no sofá a ver filmes com um namorado. Respondi-lhe que não, que aquilo de que eu tinha saudades era da parte antes dessa, da fase da conquista, de me pôr bonita para ir jantar fora e ficar com a boca seca da expectativa. Entretanto esses jantares vieram, uns mais giros do que outros, uns a evoluírem mais do que outros, e há uns dias dei por mim a pensar nisto das primeiras impressões e o que é que separa uma pessoa interessante
em si de uma pessoa interessante
para nós. Porque se pusermos as coisas em termos racionais, é possível olhar para alguém e apontar o que faz desse alguém perfeito, pelo menos em teoria: interesses comuns, sentido de humor, objectivos de vida, inteligência, profundidade, e já agora uma carinha ou um físico que faça alguma coisa pela nossa taquicardia. O problema é isso ser só em teoria. Porque enquanto há pessoas que são automaticamente afastadas de um relacionamento mais profundo por darem erros a falar ou gostarem de touradas (dou dois exemplos meus mas a lista pode ser infinda, consoante cada um, e não me venham dizer que estou a ser esquisita e vou acabar sozinha porque toda a gente tem as suas paranóias), há outras que não percebemos bem porque é que ficam ali no meio, perfeitas em teoria mas insonsas na prática, companhia ideal para ir ver uma exposição num domingo à tarde mas não para partilhar um pequeno-almoço na cama ou uma maratona de filmes no sofá (lá está). Eu não queria estar a voltar à questão de que o romantismo morreu porque já disse o que tinha a dizer sobre esse assunto neste blogue, mas a verdade é que também me parece que hoje em dia as pessoas vão sair mas com aquela postura de que "se der, deu, e se não der também paciência, há muito trabalho e muita coisa para fazer e o tempo não dá para tudo" e ninguém tem grande paciência para tentar arrebatar ninguém ou ser arrebatado. E no fim, parece-me, a questão é só uma: uma pessoa até pode ser perfeita para nós, em teoria, ou não tão perfeita assim, logo à partida. Mas a única coisa que interessa são aqueles segundos, aquele momento em que viramos costas e percebemos se vamos ter de estar com essa pessoa outra vez, todas as vezes, depressa e sem ter medo de o demonstrar, sempre que for preciso.