Concedo que não sou a pessoa mais indicada para escrever sobre o fim do romantismo. Qualquer pessoa poderá dizer (começando por mim mesma) que o romantismo não morreu, não há é quem seja romântico
comigo. Ou à minha volta. Seja. Para essas afirmações, eu respondo na mesma: já não há pessoas românticas. Pessoas arrebatadas, veementes, apaixonadas, loucas, arrojadas, inconscientes, impulsivas,
romanticamente desesperadas.
O
Pedro defendeu no outro dia, a propósito de um espectáculo do Dylan
Moran, que, ao contrário da conotação feminina da palavra romantismo, já não há mulheres românticas. Mais: nas grandes cidades, há apenas mulheres gélidas.
Dissessem-me isto há uns tempos, e a minha reacção seria dada pela costela feminista. Que os homens é que perderam todo o romantismo, as mulheres são apenas mal compreendidas. Mas como não foi há uns tempos, mas sim há uma semana, a minha reacção foi apenas esta: não há mulheres românticas, mas também não há homens românticos.
Já ninguém morre de amor. Ninguém deixa de comer porque só pensa noutra pessoa. Ninguém se fecha em casa com um desgosto amoroso. Hoje, se alguém demonstra interesse (outra palavra que matou o romantismo), é sempre
comedidamente. Fica um convite no ar, não se insiste muito para não se parecer um louco obcecado, e é ver como a coisa anda. Se dizemos que agora não dá, pedem para avisar quando der. E pronto.
Claro que esta coisa de seguir os impulsos e ter actos tresloucados, tem sempre um revés maldoso. Ninguém quer uma pessoa que não deseja a cantar uma serenata à porta de casa, com um ramo de flores e dois bilhetes de avião para o
Tahiti na mão. Ninguém quer alguém de quem não gosta a insistir em viver feliz para sempre. Mas desistir logo? Esperar para ver as cenas dos próximos capítulos? Andar aos beijinhos e não falar sobre isso e logo se vê? Remoer uma paixão durante meses e meses e não dizer à pessoa que está ao nosso lado que quando ela aparece o dia que era de
chacha fica logo diferente?
E o pior é isto: é ser sincero e ficar com o rótulo de pessoa precipitada. É, de repente, ser um ovni só porque se disse "gosto de ti".