má língua:
aquela que se porta bem
na minha boca
Bénédicte Houart, Vida: Variações (Livros Cotovia)
sábado, 31 de maio de 2008
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Madrid
Foi um segundo round que quase começou por nem ser. No aeroporto, pouco passava das oito da manhã, a senhora do check-in recolhe os nossos quatro B.I.s e pergunta:
"Quem é a menina.................?"
E eu, de voz sumida, a achar já ai-que-é-desta-ela-leu-ali-uma informação-qualquer-e-vem-já-aí-a-polícia-deter-me-para-interrogatório, respondi:
"Sou eu, porquê? (o 'porquê' ainda mais sumido)
"É que a menina não viaja hoje."
O B.I. caducado. Caducado há sete dias, e eu que nem tinha olhado para ele senão para dizer: "Olha eu aqui tão jovem na fotografia." Parva, parva, parva.
Melhor mesmo só outra amiga na mesma situação, e a voz da senhora do check-in novamente:
"E quem é a menina.....................? A menina também não vai viajar hoje."
B.I. também caducado. Não há sete dias mas há três - três - meses.
E de repente já não éramos quatro miúdas a caminho de Madrid para um fim-de-semana prolongado, mas duas com bilhete para Madrid e duas a fazer a maratona para ir a casa e voltar com passaporte (esse sim, só caduca em 2010, uff).
No meio disto tudo, consegui ao menos fazer algo com que sempre sonhei, que foi atirar com as malas para dentro de um táxi e pôr um ar espavorido e aflito para dizer
"Temos de ir a este sítio e voltar em trinta minutos!"
(para a próxima será o "Siga aquele carro!")
E consegui. Perante os nervos do taxista, que cobrou a bandeirada mesmo antes de chegarmos só para ganhar tempo, a atirar as moedas para cima do banco, e que se despediu de mim com um "tudo de bom" tão sentido como se eu estivesse de partida para os jogos olímpicos, consegui. Nos últimos três minutos, mas consegui. E Madrid, que quase não esteve para ser, lá se concretizou.
Por lá, foi uma cidade que não me convenceu à primeira (apesar do Prado) a tentar convencer-me desta vez: pequenos-almoços com tostadas de manteiga e doce, à espanhola; a Calle Fuencarral loja sim loja sim; as tapas da Lateral; Juan, o príncipe das Astúrias, no bar com o pior escoamento de fumo do mundo; um mocca blanco no Starbucks todos os dias; o Retiro e aquele jardim só de rosas; a t-shirt do Banksy no Rastro (e a molha que apanhámos logo a seguir); a Calle Alcala feita de trás para a frente e de frente para trás porque a nossa querida anfitriã se enganou no número da porta em cem números; e, finalmente, o regresso a Lisboa. Sem contra-relógios desta vez.
"Quem é a menina.................?"
E eu, de voz sumida, a achar já ai-que-é-desta-ela-leu-ali-uma informação-qualquer-e-vem-já-aí-a-polícia-deter-me-para-interrogatório, respondi:
"Sou eu, porquê? (o 'porquê' ainda mais sumido)
"É que a menina não viaja hoje."
O B.I. caducado. Caducado há sete dias, e eu que nem tinha olhado para ele senão para dizer: "Olha eu aqui tão jovem na fotografia." Parva, parva, parva.
Melhor mesmo só outra amiga na mesma situação, e a voz da senhora do check-in novamente:
"E quem é a menina.....................? A menina também não vai viajar hoje."
B.I. também caducado. Não há sete dias mas há três - três - meses.
E de repente já não éramos quatro miúdas a caminho de Madrid para um fim-de-semana prolongado, mas duas com bilhete para Madrid e duas a fazer a maratona para ir a casa e voltar com passaporte (esse sim, só caduca em 2010, uff).
No meio disto tudo, consegui ao menos fazer algo com que sempre sonhei, que foi atirar com as malas para dentro de um táxi e pôr um ar espavorido e aflito para dizer
"Temos de ir a este sítio e voltar em trinta minutos!"
(para a próxima será o "Siga aquele carro!")
E consegui. Perante os nervos do taxista, que cobrou a bandeirada mesmo antes de chegarmos só para ganhar tempo, a atirar as moedas para cima do banco, e que se despediu de mim com um "tudo de bom" tão sentido como se eu estivesse de partida para os jogos olímpicos, consegui. Nos últimos três minutos, mas consegui. E Madrid, que quase não esteve para ser, lá se concretizou.
Por lá, foi uma cidade que não me convenceu à primeira (apesar do Prado) a tentar convencer-me desta vez: pequenos-almoços com tostadas de manteiga e doce, à espanhola; a Calle Fuencarral loja sim loja sim; as tapas da Lateral; Juan, o príncipe das Astúrias, no bar com o pior escoamento de fumo do mundo; um mocca blanco no Starbucks todos os dias; o Retiro e aquele jardim só de rosas; a t-shirt do Banksy no Rastro (e a molha que apanhámos logo a seguir); a Calle Alcala feita de trás para a frente e de frente para trás porque a nossa querida anfitriã se enganou no número da porta em cem números; e, finalmente, o regresso a Lisboa. Sem contra-relógios desta vez.
terça-feira, 27 de maio de 2008
terça-feira, 20 de maio de 2008
Tiradas mágicas e sorrisos amarelos
Gostava de saber o que é que vem a seguir a um sorriso amarelo, mas não sei. Pura e simplesmente não sei o que fazer ou como reagir quando ouço a piada mais seca do mundo. Pior, quando ouço a mesma piada todas as semanas, e ela não tem graça nenhuma.
À sexta-feira, já sei. Se vou comprar o jornal ao pé do trabalho, já sei o que me espera. Chego ao quiosque, peço o Público, preparo-me para agarrar na carteira e tirar as moedas, quando o senhor do estaminé dá ares de que está à procura do preço no cimo da página e diz:
Ora beeeeeeeem. Como é para si - e só porque é para si, hein? - é um euro e trinta e cinco.
Exactamente o preço que lá está marcado. E é isto sempre. Sempre sempre que lá vou.
Nesta última sexta-feira então foi irreal. Já estava eu com a cara número 42, a pedir a todos os santinhos que ele não se saísse com aquela , que-eu-já-tenho-um-dia-difícil-porque-sexta-é-dia-de-fecho-e-esta-é-a-minha-hora-de-almoço-e-passo-bem-sem-pretendentes-a-comediantes-sem-graça-nenhuma, quando a criatura não só se sai com a mesma de sempre
Ora beeeeeeeem. Como é para si - e só porque é para si, hein? - é um euro e trinta e cinco
como ainda há alguém, que só pode ser alguém com muito pouca sorte na vida, que diz:
Epá, você é um mãos largas.
Por isso é que eu digo que não sei - não sei - o que é que vem a seguir ao sorriso amarelo. Não me sai nada, nem uma ideia genial nem uma tirada ainda mais mágica para resposta.
Como há bocado: ligo para um restaurante indiano, a perguntar se têm take away e como é que funciona, e quando pergunto se posso encomendar tudo o que está na ementa, o senhor indiano lá do outro lado da linha responde:
Sim, se quiser até me pode encomendar a mim.
E eu, claro, o que é que eu fiz? Respondi: "Haaaaaa haaaaaaa..."
Que é a versão telefónica do sorriso amarelo.
Pois.
À sexta-feira, já sei. Se vou comprar o jornal ao pé do trabalho, já sei o que me espera. Chego ao quiosque, peço o Público, preparo-me para agarrar na carteira e tirar as moedas, quando o senhor do estaminé dá ares de que está à procura do preço no cimo da página e diz:
Ora beeeeeeeem. Como é para si - e só porque é para si, hein? - é um euro e trinta e cinco.
Exactamente o preço que lá está marcado. E é isto sempre. Sempre sempre que lá vou.
Nesta última sexta-feira então foi irreal. Já estava eu com a cara número 42, a pedir a todos os santinhos que ele não se saísse com aquela , que-eu-já-tenho-um-dia-difícil-porque-sexta-é-dia-de-fecho-e-esta-é-a-minha-hora-de-almoço-e-passo-bem-sem-pretendentes-a-comediantes-sem-graça-nenhuma, quando a criatura não só se sai com a mesma de sempre
Ora beeeeeeeem. Como é para si - e só porque é para si, hein? - é um euro e trinta e cinco
como ainda há alguém, que só pode ser alguém com muito pouca sorte na vida, que diz:
Epá, você é um mãos largas.
Por isso é que eu digo que não sei - não sei - o que é que vem a seguir ao sorriso amarelo. Não me sai nada, nem uma ideia genial nem uma tirada ainda mais mágica para resposta.
Como há bocado: ligo para um restaurante indiano, a perguntar se têm take away e como é que funciona, e quando pergunto se posso encomendar tudo o que está na ementa, o senhor indiano lá do outro lado da linha responde:
Sim, se quiser até me pode encomendar a mim.
E eu, claro, o que é que eu fiz? Respondi: "Haaaaaa haaaaaaa..."
Que é a versão telefónica do sorriso amarelo.
Pois.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Um dia
Eu vinha contente, vinha com um brilhozinho nos olhos dizer que voltei a acreditar em finais felizes, e em pessoas que não nos dão um estalo na cara quando menos esperamos. Eu vinha quase cantarolante, leve, positiva, toda eu rouxinóis a cantar só porque uma amiga é a pessoa mais feliz do mundo por causa de um homem que até o pequeno-almoço lhe leva à cama.
Eu vinha fazer um elogio ao amor mesmo sem ter nada a ver com isso. Como esperei um dia, já não venho. Um dia basta para alguém que conhecemos e de quem gostamos ser magoado a valer.
Infelizmente.
Eu vinha fazer um elogio ao amor mesmo sem ter nada a ver com isso. Como esperei um dia, já não venho. Um dia basta para alguém que conhecemos e de quem gostamos ser magoado a valer.
Infelizmente.
sábado, 17 de maio de 2008
Uma dúvida
Se ele não me vê quando não está comigo, será que consegue perceber que a minha cara se ilumina quando ele aparece?
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Depois do primeiro cabelo branco...
... é sempre a descer.
Comprei hoje as minhas primeiras lentes de contacto.
Comprei hoje as minhas primeiras lentes de contacto.
Bombons
Todo o dia como o dia lá fora: cinzenta, triste, a remoer cá dentro uma desilusão que não é de agora mas que me magoa como se fosse (sei lidar com desilusões de amores, de trabalho, não sei lidar com desilusões de amigos). À minha volta, outras pessoas tristes, mais tristes do que eu. E uma gritaria que todos ouvimos vezes e vezes sem conta mas que não devia ser connosco.
Para compor o dia e o estado de espírito, os The National nos ouvidos em repeat, o menino a cantar
"Sometimes you get up and bake a cake or something,
Sometimes you stay in bed.
Sometimes you go la di da di da di da da
Til your eyes roll back into your head"
(e eu já sei que amanhã vou "la di da di da da", assobiar para o lado como se nada fosse, ignorar o que não me apetece resolver).
Ao chegar a casa, uma bela caixa de bombons embrulhada com um laço. E de repente o meu dia menos como o dia lá fora. Truuuuufas!
Agarrei numa mais bonita do que as outras, em chocolate branco, redonda como um berlinde e polvilhada com um açúcar brilhante. E antes que me pudesse sequer deliciar com o chocolate a derreter, zás, explodiu-se a trufa bonita na boca, cheia de um licor mais amargo que óleo de fígado de bacalhau e tão alcoólico que acho que se me fizerem agora o teste do balão, acusa.
Tenho medo de voltar à caixa e escolher outro bombom. Porque afinal os chocolates são como a vida real: tão bonitos, com tantas promessas, e explodem quando menos esperamos. Amargos que sei lá.
Para compor o dia e o estado de espírito, os The National nos ouvidos em repeat, o menino a cantar
"Sometimes you get up and bake a cake or something,
Sometimes you stay in bed.
Sometimes you go la di da di da di da da
Til your eyes roll back into your head"
(e eu já sei que amanhã vou "la di da di da da", assobiar para o lado como se nada fosse, ignorar o que não me apetece resolver).
Ao chegar a casa, uma bela caixa de bombons embrulhada com um laço. E de repente o meu dia menos como o dia lá fora. Truuuuufas!
Agarrei numa mais bonita do que as outras, em chocolate branco, redonda como um berlinde e polvilhada com um açúcar brilhante. E antes que me pudesse sequer deliciar com o chocolate a derreter, zás, explodiu-se a trufa bonita na boca, cheia de um licor mais amargo que óleo de fígado de bacalhau e tão alcoólico que acho que se me fizerem agora o teste do balão, acusa.
Tenho medo de voltar à caixa e escolher outro bombom. Porque afinal os chocolates são como a vida real: tão bonitos, com tantas promessas, e explodem quando menos esperamos. Amargos que sei lá.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Eu bem digo...
... que sou uma pessoa que não está bem.
No outro dia deixei passar a estação de metro em que devia ter saído, e nem a vi.
Hoje acabei de atirar uma T-shirt da Carhartt pela conduta do lixo.
No outro dia deixei passar a estação de metro em que devia ter saído, e nem a vi.
Hoje acabei de atirar uma T-shirt da Carhartt pela conduta do lixo.
terça-feira, 6 de maio de 2008
De fininho
"Love creeps up on you. She puts her hands over your eyes and asks you to guess who she is."*
Hoje, a folhear a agenda, dei com esta frase. Escrevi-a no momento em que a ouvi. Porque esta ideia de o amor chegar de fininho e fazer connosco o jogo infantil de pôr as mãos em cima dos olhos e pedir para adivinhar quem é, é uma imagem muito muito bonita.
Mas eu pergunto-me... Esse chegar de fininho é suposto ser assim tão de fininho e tão devagar que não há maneira de dar por ele?
* roubado a Presumption, dos Third Angel
Hoje, a folhear a agenda, dei com esta frase. Escrevi-a no momento em que a ouvi. Porque esta ideia de o amor chegar de fininho e fazer connosco o jogo infantil de pôr as mãos em cima dos olhos e pedir para adivinhar quem é, é uma imagem muito muito bonita.
Mas eu pergunto-me... Esse chegar de fininho é suposto ser assim tão de fininho e tão devagar que não há maneira de dar por ele?
* roubado a Presumption, dos Third Angel
domingo, 4 de maio de 2008
Antes de ter nascido
A propósito dos 40 anos do Maio de 68, o Público foi a seis faculdades saber se os estudantes sabiam o que tinha sido o Maio de 68. Em 309, 60% não sabiam, sendo que a diferença era abissal entre os que pertenciam a faculdades de ciências sociais e humanas (75% sabiam o que era) e os que pertenciam a universidades técnicas (70% não sabiam). Tirando as várias pérolas que os jornalistas ouviram e transcrevem sobre o que foi a revolta de 68 – “o primeiro ano em que se comemorou o 1º de Maio” (!) ou “foi quando o Marcello Caetano subiu ao poder e se discutiram subsídios, férias e políticas de habitação” (!!!) – houve uma aluna do Técnico que se saiu com esta:
“Em 68 ainda não tinha nascido, como é que querem que saiba?”
Oh, claro, que parvoíce de pergunta. Para quê estudar milhares de anos de História se aconteceram antes de termos nascido? Qual o interesse, se aconteceu há 30, 40, 600 anos? Queimem-se já os manuais. Faça-se outra revolução cultural.
“Em 68 ainda não tinha nascido, como é que querem que saiba?”
Oh, claro, que parvoíce de pergunta. Para quê estudar milhares de anos de História se aconteceram antes de termos nascido? Qual o interesse, se aconteceu há 30, 40, 600 anos? Queimem-se já os manuais. Faça-se outra revolução cultural.
Acasos e probabilidades
Fiz as contas por alto, e as probabilidades que eu tinha de o encontrar naquele dia eram de 3%. Três para cem. Ou seja, ínfimas. Mas encontrei-o naquele dia. Mal o vi, mas encontrei-o. Era ele e era real, e de repente percebi que tinha saudades. Outra vez. Já as tinha há uns meses, depois obriguei-me a deixar de ter, agora era como quase tudo o que me deixa triste: não pensava nisso. Mas ele passar por mim e tornar reais as hipóteses tão ínfimas que tínhamos de nos ver, relembrou-me que tinha saudades. E agora é pior, porque não só as tenho novamente como tenho mais do que tinha nessa altura.
Veio-me parar no outro dia à secretária um livro que diz que o acaso comanda as nossas vidas. Não o li nem sei como o autor defende essa tese, mas à partida estou de acordo. Todas as merdinhas e mais alguma condicionam a nossa vida. São tão ou mais importantes do que as nossas escolhas, embora inconscientes. Como por exemplo nesse dia: se eu não tivesse parado no semáforo xis por ir a mais de 50, se não tivesse parado para pôr gasolina, se não tivesse ido até ao miradouro olhar para o boneco durante os minutos precisos em que o fiz (e etc), nunca me tinha cruzado com ele naquele ponto em que me cruzei, talvez nem o tivesse visto e não me tivesse lembrado dele desta maneira. Não acredito em destino (acredito na p*** da ironia, é no que acredito!), mas estes acasos deixam-me sempre a pensar.
Desde sempre que tenho uns “pressentimentos” – não sei bem como lhes chamar –, umas sensações esquisitas. Antes de o meu avô morrer, tinha 9 anos, andei numa tristeza profunda motivada por razão nenhuma. Nunca a tinha sentido e, quando a voltei a sentir, outra pessoa morreu. Quando um ex-namorado que era namorado na altura e era muito importante, teve um acidente grave na auto-estrada, sem fazer sequer a mínima ideia que ele estava na estrada, ao mesmo tempo e a quilómetros de distância comecei-me a queixar de dores horríveis nas costas, ao ponto de ter de me levantar da cadeira de um restaurante por já não aguentar mais. Um restaurante onde já tinha ido e onde voltei mais tarde, e onde me sentei nas mesmas cadeiras sem problemas nenhuns. Foi o mesmo ontem: contra todas as probabilidades, no fundo também achava que o podia encontrar. É esquisito, não faz sentido, mete um bocadinho de medo e é ridículo, mas é verdade.
Há coisas na minha vida que não vivi mas que encaro com tranquilidade, porque sei que vou viver mais cedo ou mais tarde. Simplesmente sei que sim e nem duvido. (até agora tem acontecido sempre da maneira como penso, sim.) Ele, o das improbabilidades estatísticas, ele é a minha grande incógnita. Talvez por haver tão poucas hipóteses de o encontrar, talvez por não o conhecer o suficiente para me desiludir e descobrir coisas que me irritem ou características incompatíveis. Só sei que, nos cinco minutos que ele demorou a responder à minha mensagem, a confirmar se era ele ou não que tinha passado por mim de carro, senti aquela sensação idiota que sobe pelo peito acima, que me dá vontade de ouvir música aos berros e que me faz pensar que nunca mais vou precisar de dormir na vida. Durou cinco minutos. Não devia sequer ter surgido. Porque é que surgiu? Também não consigo dizer. Acho que gostarmos de alguém acaba por ser muito fruto do acaso também, no sentido em que é quase irracional (podemos enumerar uma serie de razões para gostar de alguém, do género ‘gosto dele porque, porque e porque’, mas no fim resume-se tudo a um ‘gosto dele porque sim).
Mas agora pergunto-me: se aparentemente é tão fácil, num dia igual aos outros, de repente sentir um turbilhão assim, onde é que essa sensação anda nos outros dias?
Veio-me parar no outro dia à secretária um livro que diz que o acaso comanda as nossas vidas. Não o li nem sei como o autor defende essa tese, mas à partida estou de acordo. Todas as merdinhas e mais alguma condicionam a nossa vida. São tão ou mais importantes do que as nossas escolhas, embora inconscientes. Como por exemplo nesse dia: se eu não tivesse parado no semáforo xis por ir a mais de 50, se não tivesse parado para pôr gasolina, se não tivesse ido até ao miradouro olhar para o boneco durante os minutos precisos em que o fiz (e etc), nunca me tinha cruzado com ele naquele ponto em que me cruzei, talvez nem o tivesse visto e não me tivesse lembrado dele desta maneira. Não acredito em destino (acredito na p*** da ironia, é no que acredito!), mas estes acasos deixam-me sempre a pensar.
Desde sempre que tenho uns “pressentimentos” – não sei bem como lhes chamar –, umas sensações esquisitas. Antes de o meu avô morrer, tinha 9 anos, andei numa tristeza profunda motivada por razão nenhuma. Nunca a tinha sentido e, quando a voltei a sentir, outra pessoa morreu. Quando um ex-namorado que era namorado na altura e era muito importante, teve um acidente grave na auto-estrada, sem fazer sequer a mínima ideia que ele estava na estrada, ao mesmo tempo e a quilómetros de distância comecei-me a queixar de dores horríveis nas costas, ao ponto de ter de me levantar da cadeira de um restaurante por já não aguentar mais. Um restaurante onde já tinha ido e onde voltei mais tarde, e onde me sentei nas mesmas cadeiras sem problemas nenhuns. Foi o mesmo ontem: contra todas as probabilidades, no fundo também achava que o podia encontrar. É esquisito, não faz sentido, mete um bocadinho de medo e é ridículo, mas é verdade.
Há coisas na minha vida que não vivi mas que encaro com tranquilidade, porque sei que vou viver mais cedo ou mais tarde. Simplesmente sei que sim e nem duvido. (até agora tem acontecido sempre da maneira como penso, sim.) Ele, o das improbabilidades estatísticas, ele é a minha grande incógnita. Talvez por haver tão poucas hipóteses de o encontrar, talvez por não o conhecer o suficiente para me desiludir e descobrir coisas que me irritem ou características incompatíveis. Só sei que, nos cinco minutos que ele demorou a responder à minha mensagem, a confirmar se era ele ou não que tinha passado por mim de carro, senti aquela sensação idiota que sobe pelo peito acima, que me dá vontade de ouvir música aos berros e que me faz pensar que nunca mais vou precisar de dormir na vida. Durou cinco minutos. Não devia sequer ter surgido. Porque é que surgiu? Também não consigo dizer. Acho que gostarmos de alguém acaba por ser muito fruto do acaso também, no sentido em que é quase irracional (podemos enumerar uma serie de razões para gostar de alguém, do género ‘gosto dele porque, porque e porque’, mas no fim resume-se tudo a um ‘gosto dele porque sim).
Mas agora pergunto-me: se aparentemente é tão fácil, num dia igual aos outros, de repente sentir um turbilhão assim, onde é que essa sensação anda nos outros dias?
sexta-feira, 2 de maio de 2008
One song for the ride
Directamente saída do novo álbum dos Disco Ensemble, uma banda finlandesa que veio cá tocar há uns anos e me deixou de queixo caído.
Truliru, até breve.
Pus cinco livros na mala...
...E cerca de 15 revistas também. Eu sei que só tenho quatro dias livres, que vou já aqui para o lado e que também quero passar tempo na conversa ou a não fazer nenhum. Mas sabe bem pensar que vou ter tempo e cabeça para ler cinco livros e 15 revistas, e hoje anoitecer na melhor pizzaria da Ericeira (é o que dizem) à conversa com um amigo.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Fim-de-semana prolongado
Foi assim que desliguei o carro e troquei os ténis pelos chinelos. Foi assim que senti aquele calor e sol imenso, que nem cheirava a mar, cheirava a quente. Foi assim que fui à praça e a senhora dos legumes e das guloseimas me cumprimentou como quem não me via há meses mas agora é que vai ser. Foi assim que arejei a casa como deve ser, e abri os estores até à última ripa, e o sol, já muito mais alto, entrou pelo quarto e pela corredor fora. Foi assim que voltei a adormecer na praia e a só acordar com os gritos das criancinhas (ou dos pais das criancinhas). Foi assim que o café a que vou sempre voltou a ter gelado de framboesa e eu a comer uma bola num copo e a ficar com os lábios cor de rosa. Foi assim que à noite me pude sentar na varanda a escrever e nem uma aragem, só calor e silêncio. Foi assim que as calças de ganga, no domingo à noite, pareceram apertadas e desconfortáveis, por causa do sal e de três dias sem outra roupa que não o bikini.
Foi assim que fiquei outra vez cheia de sardas, como é hábito sazonal. E foi assim que fiquei, oficialmente - e para que conste - em modo verão.
Foi assim que fiquei outra vez cheia de sardas, como é hábito sazonal. E foi assim que fiquei, oficialmente - e para que conste - em modo verão.
The Man I Love
Some day he'll come along,
The man I love
And he'll be big and strong,
The man I love
And when he comes my way
I'll do my best to make him stay.
He'll look at me and smile
I'll understand
And in a little while,
He'll take my hand
And though it seems absurd,
I know we both won't say a word
Maybe I shall meet him Sunday
Maybe Monday, maybe not
Still I'm sure to meet him one day
Maybe Tuesday will be my good news day
He'll build a little home
Just meant for two,
From which I'll never roam,
Who would - would you?
And so all else above
I'm waiting for the man I love.
terça-feira, 22 de abril de 2008
A primeira vez
Hoje, ao falar de Jacques Becker, um realizador português à beira dos 70 anos disse aos seus alunos:
"Se nunca viram nada dele, vejam os filmes que ele fez, sobretudo o Casque d'or e o Touchez pas au grisbi ". E parou, para continuar:
"Tenho inveja vossa. Se nunca tiverem visto. Inveja dessa primeira vez. Eu já só posso recordar, rever."
Isto deixou-me a pensar numa série de coisas... como é costume na minha cabeça, das mais problemáticas às mais parvas, incluindo naquela música dos Anberlin em que ele canta "I wanna be your last first kiss", verso que achei, durante muito tempo, o mais bonito que me poderiam dizer. Claro que são coisas diferentes, o maravilhamento da descoberta de um autor de eleição ou de uma obra-prima, e o começar uma história de amor. Mas a forma como eu encaro esse simples verso agora (antigamente era um sinal do maior devoção possível, hoje é um sinal de um apaixonado possessivo em potência), demonstra como a ideia de só haver uma primeira vez, uma só, já não é para mim o mesmo que era há uns tempos (ou então é apenas mais uma prova de que me encontro realmente no grau zero do romantismo).
Hoje, e cada vez mais, é quase angustiante pensar que só há realmente uma primeira vez para tudo. Que o que é complemente novo num momento, no seguinte já não o vai ser, e que é assim até à exaustão, com tudo. Repetição atrás de repetição.
Acho que isso explica porque é que é tão irritante e tem um travo tão desmancha prazeres quando nos contam o final de um filme no momento em que ainda mal o começámos a ver, ou porque é que é quase sempre tão desapontante experimentar algo que já tem, à partida, expectativas mais altas que o Everest.
Não sei... Acho que, resumindo e concluindo, fiquei com vontade de ver qualquer coisa do Jacques Becker. Nunca vi nada dele.
"Se nunca viram nada dele, vejam os filmes que ele fez, sobretudo o Casque d'or e o Touchez pas au grisbi ". E parou, para continuar:
"Tenho inveja vossa. Se nunca tiverem visto. Inveja dessa primeira vez. Eu já só posso recordar, rever."
Isto deixou-me a pensar numa série de coisas... como é costume na minha cabeça, das mais problemáticas às mais parvas, incluindo naquela música dos Anberlin em que ele canta "I wanna be your last first kiss", verso que achei, durante muito tempo, o mais bonito que me poderiam dizer. Claro que são coisas diferentes, o maravilhamento da descoberta de um autor de eleição ou de uma obra-prima, e o começar uma história de amor. Mas a forma como eu encaro esse simples verso agora (antigamente era um sinal do maior devoção possível, hoje é um sinal de um apaixonado possessivo em potência), demonstra como a ideia de só haver uma primeira vez, uma só, já não é para mim o mesmo que era há uns tempos (ou então é apenas mais uma prova de que me encontro realmente no grau zero do romantismo).
Hoje, e cada vez mais, é quase angustiante pensar que só há realmente uma primeira vez para tudo. Que o que é complemente novo num momento, no seguinte já não o vai ser, e que é assim até à exaustão, com tudo. Repetição atrás de repetição.
Acho que isso explica porque é que é tão irritante e tem um travo tão desmancha prazeres quando nos contam o final de um filme no momento em que ainda mal o começámos a ver, ou porque é que é quase sempre tão desapontante experimentar algo que já tem, à partida, expectativas mais altas que o Everest.
Não sei... Acho que, resumindo e concluindo, fiquei com vontade de ver qualquer coisa do Jacques Becker. Nunca vi nada dele.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Minutos valiosos
Nunca gostei das estatísticas que, a partir de um valor absoluto, dividem os resultados por milhentas categorias e apresentam os valores esmiuçados como tão certos quanto os originais. Mas hoje, ao ler um artigo sobre o Cristiano Ronaldo na Visão, gostei ainda menos.
A partir de dados retirados da revista France Football, fiquei a saber que o Cristiano Ronaldo ganha, por ano, 19.5 milhões - milhões! - de euros. Isto já roça quase o insultuoso, mas dividido pelas tais milhentas categorias, ainda se torna mais penoso para o comum mortal que anda a penar todo o mês e a esticar cada centavo. Pois 19,5 milhões de euros são, nada mais nada menos que:
1.625 milhões por mês;
54.166 por dia;
6.770 por hora;
113 por minuto.
Cento e treze euros por minuto??? Cento e treze euros? Por minuto? O mesmo minuto que se gasta assim, num tirinho? Num minuto sou eu capaz de gastar 113 euros, agora ganhar… já é mais difícil.
Eu não percebo. Não percebo. Não percebo porque é que queimei as minhas pestaninhas a tirar um curso, porque é que trabalho horas extraordinárias, às vezes fins-de-semana, para isto. Para nem sequer aspirar à geração mil euros, porque para os mil ainda me falta um bocadinho.
E não percebo, não percebo, não percebo, Cristiano Ronaldo, porque é que quando me viste no CCB, não te deu o piripaque e não me quiseste adoptar. Eu tinha dito que sim.
A partir de dados retirados da revista France Football, fiquei a saber que o Cristiano Ronaldo ganha, por ano, 19.5 milhões - milhões! - de euros. Isto já roça quase o insultuoso, mas dividido pelas tais milhentas categorias, ainda se torna mais penoso para o comum mortal que anda a penar todo o mês e a esticar cada centavo. Pois 19,5 milhões de euros são, nada mais nada menos que:
1.625 milhões por mês;
54.166 por dia;
6.770 por hora;
113 por minuto.
Cento e treze euros por minuto??? Cento e treze euros? Por minuto? O mesmo minuto que se gasta assim, num tirinho? Num minuto sou eu capaz de gastar 113 euros, agora ganhar… já é mais difícil.
Eu não percebo. Não percebo. Não percebo porque é que queimei as minhas pestaninhas a tirar um curso, porque é que trabalho horas extraordinárias, às vezes fins-de-semana, para isto. Para nem sequer aspirar à geração mil euros, porque para os mil ainda me falta um bocadinho.
E não percebo, não percebo, não percebo, Cristiano Ronaldo, porque é que quando me viste no CCB, não te deu o piripaque e não me quiseste adoptar. Eu tinha dito que sim.
sábado, 12 de abril de 2008
Almoços solitários
Quando aproveito a hora de almoço para tratar de burocracias, como ontem, é certo e sabido que vou ter de almoçar sozinha, a correr. Confesso que me deprime um bocadinho a ideia da garfada solitária, o não ter para onde olhar (em casa não me importo nada, tenho a televisão e mil dvds para ver), o não ter com quem falar. Nem é a ideia de estar sozinha, que tenho aprendido a valorizar nos últimos anos e que até me sabe bem, ao ponto de ter saudades quando é demasiada a informação e as solicitações e pouco o tempo para parar, pensar e estar sem ninguém por perto. Dizia eu que nem é a ideia de estar sozinha, é antes um desconforto de não saber onde pousar os olhos, de desvirtuar um acto que devia ser comunitário e de haver uma tendência para engolir tudo sofregamente, o que não é nem de longe aconselhável e me deixa quase sempre com azia.
É por isso que, quando tenho de ir almoçar sozinha, tenho um truque: procuro um mesa junto a um grupo (duas pessoas bastam) que esteja animado, e sento-me ao lado para ouvir a conversa. Não é bonito e vai contra uma das regras básicas das boas maneiras, eu sei, mas também nunca ouvi nada de especial - as pessoas falam da manhã que tiveram, do tempo, do fim-de-semana, do trabalho, aqui e ali de relações, de ralações e projectos. É uma distracção, de certa forma uma companhia.Mas ontem, quando na mirada (in)discreta procurei esse tal lugar, constatei que a grande maioria das pessoas estava a almoçar sozinha. Mesa sim mesa sim, num daqueles espaços abertos de restauração de centro comercial, seguiam-se almoços solitários, rápidos. Não sei se as razões eram as mesmas que as minhas, se toda a gente resolveu aproveitar para tratar de burocracias, se pura e simplesmente não têm companhia ou se estão fartas umas das outras e precisam desse tal tempo para parar, pensar e estar sem ninguém.Sei que foi uma constatação triste. Aqueles olhos parados num ponto do infinito ou distraídos numa revista ao lado do prato, no meio de um espaço tão cheio de gente, ficaram-me na cabeça. Talvez porque sinto actualmente uma solidão completamente diferente da que alguma vez senti até hoje, aquela solidão que a Clarice Lispector descreveu tão bem e que tem a ver com o facto de ninguém ser eu a não ser eu, e ninguém poder estar dentro da minha cabeça a não ser eu. O que não seria necessariamente mau ou triste, se não se desse o caso de nem eu, que sou a única pessoa que está na minha cabeça, perceber o que quero.
É por isso que, quando tenho de ir almoçar sozinha, tenho um truque: procuro um mesa junto a um grupo (duas pessoas bastam) que esteja animado, e sento-me ao lado para ouvir a conversa. Não é bonito e vai contra uma das regras básicas das boas maneiras, eu sei, mas também nunca ouvi nada de especial - as pessoas falam da manhã que tiveram, do tempo, do fim-de-semana, do trabalho, aqui e ali de relações, de ralações e projectos. É uma distracção, de certa forma uma companhia.Mas ontem, quando na mirada (in)discreta procurei esse tal lugar, constatei que a grande maioria das pessoas estava a almoçar sozinha. Mesa sim mesa sim, num daqueles espaços abertos de restauração de centro comercial, seguiam-se almoços solitários, rápidos. Não sei se as razões eram as mesmas que as minhas, se toda a gente resolveu aproveitar para tratar de burocracias, se pura e simplesmente não têm companhia ou se estão fartas umas das outras e precisam desse tal tempo para parar, pensar e estar sem ninguém.Sei que foi uma constatação triste. Aqueles olhos parados num ponto do infinito ou distraídos numa revista ao lado do prato, no meio de um espaço tão cheio de gente, ficaram-me na cabeça. Talvez porque sinto actualmente uma solidão completamente diferente da que alguma vez senti até hoje, aquela solidão que a Clarice Lispector descreveu tão bem e que tem a ver com o facto de ninguém ser eu a não ser eu, e ninguém poder estar dentro da minha cabeça a não ser eu. O que não seria necessariamente mau ou triste, se não se desse o caso de nem eu, que sou a única pessoa que está na minha cabeça, perceber o que quero.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Tan-tan-ran-taaaan
Retiro o que escrevi no outro dia. O pior toque de telemóvel não é o som de um bebé a rir. O pior toque de telemóvel, eu ouvi hoje, é o da música da tourada.
"Tan-tan-ran-taaaaan
Tan-tan-tan-tan-tan-ran-taaaaaan"
Ainda esperei para ver se o dono do telemóvel em questão atendia o telefone com um exclamativo "Olé!", mas não, foi apenas com um tímido e normalíssimo "tou".
Pena não ter ali uma bandarilha à mão para mandar naquela direcção.
Só para entrar no jogo.
"Tan-tan-ran-taaaaan
Tan-tan-tan-tan-tan-ran-taaaaaan"
Ainda esperei para ver se o dono do telemóvel em questão atendia o telefone com um exclamativo "Olé!", mas não, foi apenas com um tímido e normalíssimo "tou".
Pena não ter ali uma bandarilha à mão para mandar naquela direcção.
Só para entrar no jogo.
terça-feira, 8 de abril de 2008
As pessoas que não nos querem ver felizes
Não acredito em bonecas vudu, em pragas, em mau-olhado, em invejas capazes de mexerem com a nossa felicidade (e darem cabo dela). Mas às vezes até acredito.
Há uns meses disseram-me “Espero que nunca sejas feliz.” Não liguei, desvalorizei, respondi que sabia que não era verdade, que era apenas da boca para fora e ia passar. Mas a réplica foi “não, não é da boca para fora, é o que penso. Espero que nunca sejas feliz.” Depois disso, não disse mais nada. Mas a verdade é que, volta e meia, esta frase volta para me atormentar.
Dizem que as pragas de ex-namorados são fortes e custam a passar. E eu até concedo que em matéria de amores a irracionalidade e o ciúme disparam mais depressa que um foguete em direcção às estrelas. Que é quase normal que se digam estas coisas quando a separação não é amigável, porque é impossível imaginar o nosso amor com outro amor ou dar-lhe uma palmadinha nas costas e falar sobre novas paixões. Perder numa relação não é perder num derby, a raiva e a dor de cotovelo não passam no dia seguinte. Nem no mês seguinte sequer (no Sexo e a Cidade a Charlotte defendia que o tempo de luto de uma relação deve ser calculado em função do total, e que para um namoro de dois anos é preciso um ano de luto, para três semanas uma semana e meia, e por aí fora… o que até faz algum sentido, apesar de pretender dar um lado exacto a uma “ciência” que não tem nada de exacto).
Enfim, a questão é quando a dor de cotovelo não passa NUNCA. Ou quando nem sequer vem de uma relação amorosa mas de um pretenso amigo, de um familiar ou de um conhecido. Quando há pessoas que pura e simplesmente não nos querem ver felizes.
Descobri que tenho uma veia assassina para com estas pessoas. Que se abrir bem os olhos descubro que há mais gente assim do que imaginaria, não só à minha volta mas à volta de pessoas de quem realmente gosto. Gente que se alimenta da nossa infelicidade, que espera o passo em falso para ser moralista, que ao perguntar como vai a vida responde um sonso “aaaaaaaaaannnnn” se dizemos que estamos maravilhosos e felizes. Pessoas que parece que se alimentam da desgraça alheia, como se a desgraça alheia lhes pudesse dar um sentimento de utilidade para salvar o desgraçado.
Acho que, odiando essas pessoas pelo seu egoísmo, devia desejar que nunca fossem felizes. Devia retribuir esse malfadado “espero que nunca sejas feliz.” Mas ainda assim continuo a querer é que vão à sua vidinha. Que sejam felizes e se esqueçam de mim no meio de tanta alegria. É isso, que se esqueçam de mim. Porque nunca se sabe o que um mau-olhado ou uma inveja cega podem fazer a uma pessoa.
Há uns meses disseram-me “Espero que nunca sejas feliz.” Não liguei, desvalorizei, respondi que sabia que não era verdade, que era apenas da boca para fora e ia passar. Mas a réplica foi “não, não é da boca para fora, é o que penso. Espero que nunca sejas feliz.” Depois disso, não disse mais nada. Mas a verdade é que, volta e meia, esta frase volta para me atormentar.
Dizem que as pragas de ex-namorados são fortes e custam a passar. E eu até concedo que em matéria de amores a irracionalidade e o ciúme disparam mais depressa que um foguete em direcção às estrelas. Que é quase normal que se digam estas coisas quando a separação não é amigável, porque é impossível imaginar o nosso amor com outro amor ou dar-lhe uma palmadinha nas costas e falar sobre novas paixões. Perder numa relação não é perder num derby, a raiva e a dor de cotovelo não passam no dia seguinte. Nem no mês seguinte sequer (no Sexo e a Cidade a Charlotte defendia que o tempo de luto de uma relação deve ser calculado em função do total, e que para um namoro de dois anos é preciso um ano de luto, para três semanas uma semana e meia, e por aí fora… o que até faz algum sentido, apesar de pretender dar um lado exacto a uma “ciência” que não tem nada de exacto).
Enfim, a questão é quando a dor de cotovelo não passa NUNCA. Ou quando nem sequer vem de uma relação amorosa mas de um pretenso amigo, de um familiar ou de um conhecido. Quando há pessoas que pura e simplesmente não nos querem ver felizes.
Descobri que tenho uma veia assassina para com estas pessoas. Que se abrir bem os olhos descubro que há mais gente assim do que imaginaria, não só à minha volta mas à volta de pessoas de quem realmente gosto. Gente que se alimenta da nossa infelicidade, que espera o passo em falso para ser moralista, que ao perguntar como vai a vida responde um sonso “aaaaaaaaaannnnn” se dizemos que estamos maravilhosos e felizes. Pessoas que parece que se alimentam da desgraça alheia, como se a desgraça alheia lhes pudesse dar um sentimento de utilidade para salvar o desgraçado.
Acho que, odiando essas pessoas pelo seu egoísmo, devia desejar que nunca fossem felizes. Devia retribuir esse malfadado “espero que nunca sejas feliz.” Mas ainda assim continuo a querer é que vão à sua vidinha. Que sejam felizes e se esqueçam de mim no meio de tanta alegria. É isso, que se esqueçam de mim. Porque nunca se sabe o que um mau-olhado ou uma inveja cega podem fazer a uma pessoa.
domingo, 6 de abril de 2008
A primeira praia do ano
A primeira praia do ano foi hoje. Contra todas as previsões, domingo esteve melhor que sábado, pelo menos lá para as minhas bandas (oeste, sempre oeste), e depois de uma semana digna dos melhores dias de Junho e Julho, a abrir o apetite, era ver se alguém me demovia ou conseguia arrancar da praia ao mínimo sinal de sol.
Esteve bom, não tão bom como a semana prometia - veio o vento, vieram algumas nuvens, não fui à água - mas foi a primeira praia do ano. E a primeira praia do ano é um momento importante.
É o primeiro dia em que voltamos a cheirar o cheiro do creme protector, e cheira bem. O primeiro dia em que é mesmo suposto não fazer nada, nada, e ficar apenas de barriga esparramada ao sol. O primeiro dia em que voltam as primeiras sardas nas bochechas. O primeiro dia que de repente parece muito mais comprido, e dá para adormecer, conversar, dizer parvoíces e ler os semanários que no resto do ano ficam a agonizar pela semana fora. O primeiro dia em que se põe um chapéu na cabeça, uns óculos escuros, e se ganha automaticamente aquele ar de férias, nem que seja só por um dia. O primeiro dia em que se chega a casa com a pele diferente, e um cheiro a creme, areia, vento e maresia misturado. O primeiro dia em que o domingo à noite não tem aquele sabor horrível de segunda-feira de trabalho quase a chegar, porque estamos esbodegados mas sabe bem, e com um bom-humor vindo sabe-se lá de onde (aquilo da vitamina D só pode ser mesmo verdade).
A primeira praia do ano só tem um problema: deixa sempre vontade de mais. E agora sabe-se lá quando é que esse mais vai chegar...
Esteve bom, não tão bom como a semana prometia - veio o vento, vieram algumas nuvens, não fui à água - mas foi a primeira praia do ano. E a primeira praia do ano é um momento importante.
É o primeiro dia em que voltamos a cheirar o cheiro do creme protector, e cheira bem. O primeiro dia em que é mesmo suposto não fazer nada, nada, e ficar apenas de barriga esparramada ao sol. O primeiro dia em que voltam as primeiras sardas nas bochechas. O primeiro dia que de repente parece muito mais comprido, e dá para adormecer, conversar, dizer parvoíces e ler os semanários que no resto do ano ficam a agonizar pela semana fora. O primeiro dia em que se põe um chapéu na cabeça, uns óculos escuros, e se ganha automaticamente aquele ar de férias, nem que seja só por um dia. O primeiro dia em que se chega a casa com a pele diferente, e um cheiro a creme, areia, vento e maresia misturado. O primeiro dia em que o domingo à noite não tem aquele sabor horrível de segunda-feira de trabalho quase a chegar, porque estamos esbodegados mas sabe bem, e com um bom-humor vindo sabe-se lá de onde (aquilo da vitamina D só pode ser mesmo verdade).
A primeira praia do ano só tem um problema: deixa sempre vontade de mais. E agora sabe-se lá quando é que esse mais vai chegar...
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